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Ao ritmo da alienação coletiva do futebol


 


 

De 14 de junho a 14 de julho decorre, na Alemanha, o europeu de futebol masculino (17.ª edição): milhares de pessoas enchem os estádios, milhões seguem pela televisão, acompanhando as vinte e quatro seleções nacionais apuradas. Horas e horas a fio dedicadas ao assunto, ofuscando outros temas e situações, tanto dentro como fora de portas. Tem pairado no ar a sensação - talvez se possa considerar antes ilusão - de que a ‘nossa’ equipa poderá chegar longe na prova, mas os factos têm vindo a desmentir as pretensões...

1. Nunca como agora se conjuga tão bem a expressão latina: ‘pão e jogos’ (panem et circenses), que se referia aos senhores do império romano, no seu crepúsculo. Toda esta exaltação popular do futebol - seja em qual modalidade ou atingindo qual dos sexos - deixa perceber que algo vai mal no reino dos valores humanos e culturais. Pior ainda quando vemos associados ao fenómeno do futebol os políticos de qualquer tendência ou segundo a instância de responsabilidade: ver presidentes da nação, primeiros-ministros do país ou deputados, autarcas ou simples eleitores irmanados à volta de uma bola que rola e faz caminhar tantos interesses, não deixa de ser inquietante, revelador e, porque não, revoltante. Com efeito, parece que todos querem ser visto nas bancadas do sucesso e se esgueiram quando têm de assumir as derrotas. 

2. Quem são os novos ‘heróis’ populares e económicos senão os jogadores de futebol? Quanto ganham para exibirem as suas habilidades com a bola? Um guarda-redes não é mais barato do que um avançado ou um defesa do que um marcador de golos? Por que se paga a peso de ouro um jogador que fascina as multidões? A comunicação social não dedica mais tempo ao futebol - sobretudo em quantidade que não em qualidade - do que aos problemas sociais, culturais e políticos? Na hierarquia das questões tratadas ao nível público não haverá um exagero de tempo e de investimento económico sobre as coisas do futebolês? Repare-se num certo chauvinismo quando jogam as seleções de futebol de cada país: tudo se esquece pela vitória contra os adversários, que, por vezes, são tornados inimigos... de estimação. 

3. A exaltação das qualidades humanas de certas figuras do futebol, quando morrem, parecem funcionar como escape para a tentação de que se pode ser ‘boa pessoa’ sem necessitar de qualquer vivência religiosa e tão cristã, numa espécie de consagração laica sem Deus. Daquilo que conheço algo disto perpassou pela existência de alguns recentemente falecidos. Para além da representatividade clubística com que facilidade se faz de algum jogador de futebol uma figura tanto ou mais importante do que um herói de guerra ou uma personagem da cultura. O desgaste rápido da profissão de jogador de futebol faz dele alguém que cresce depressa, ganha dinheiro, gasta-o à pressa e cai facilmente na miséria ao final da carrreira... 

4. À exceção nítida dos jogadores procedentes da cultura latino-americana poucos são aqueles que incluem Deus nas suas referências de vitória. Em muitos vemos que o sucesso se deve à sua laboriosa habilidade e ao aproveitamento dos seus talentos para renderem muito dinheiro aos intermediários nas transferências. Com que atração tantos jovens (ou mesmo crianças) se deixam seduzir pelo sucesso do futebol, visto como sentença de consagração rara e de grande esforço...

5. Diante da hegemonia do futebol sobre a maior parte dos outros desportos, importa questionar se este é escola de valores, num trabalho em equipa e pelo desenvolvimento em favor dos outros das qualidades pessoais. Como se aceitam as derrotas ou as vitórias. Até que ponto se aprende com os erros, assumindo cada um as suas responsabilidades. Tal como no resto da vida ninguém ganha sozinho e também não perde só. Por vezes um pouco de humildade faz crescer mais do que ter sucesso, pois este só no dicionário aparece antes de trabalho…
 

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

8 julho 2024