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À ESPERA DO “I.N.E.M.”

 

A nossa classe política teima em não perceber que quanto pior estiverem os serviços públicos do Estado, mais perigo corre a democracia. E quanto mais descontentamento popular houver, maior é a quantidade de votos em partidos de protesto. Pois como escrevia a saudosa poetisa Sofia: “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”. Frase de um poema que fazia todo o sentido nos tempos da ditadura e que, também, pode fazer nestes de liberdade. Como uma espécie de escrita atenta não só às manobras dos governantes, como aos seus desmandos. 

Ora, se há quem advogue que o perigo para o regime democrático pode vir, apenas, do populismo e extremismo direi que ele também poderá surgir por via da incompetência e falta de zelo dos nossos gestores políticos para com as instituições que servem a população portuguesa. Senão, veja-se a situação deplorável que se tem verificado, ultimamente, no Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), ao não responder com prontidão aos cidadãos com a vida em risco. 

E aqui é que bate o ponto, uma vez que tal serviço esteve parado – segundo o Público – 2.608 horas, de Janeiro até ao final de Maio. Com as 44 Viaturas Médicas de Emergência e Reanimação inoperacionais mais 423h do que em 2023. Já para não falar na grave situação das ambulâncias o que é, a todos os títulos, inadmissível para um país que enterra cada vez mais dinheiro na Saúde e Proteção Civil. 

Em face disso, também o Centro de Orientação de Doentes Urgentes, tem sido contagiado com vírus similar. Isto é, os telefones não são atendidos, o que deixa os doentes pendurados e sem resposta atempada. Não se percebendo bem porquê, uma vez que o Governo anterior se gabava de ter as contas certas, mesmo depois dos gastos nesta área.

Com efeito, até os helicópteros do INEM têm andado nas bocas do mundo, apesar dos 12 milhões de euros (M€) investidos, por ajuste direto, mas mantendo-se sem tripulação adequada. Situação que transitou do executivo anterior, sem que haja responsáveis por tal calamidade. Isto, enquanto é permitido aos políticos não só se servirem dos cargos, como sair deles sem responderem por aquilo que fizeram, ou deixaram de fazer. É a velha pecha dos “boys and girls”, ainda que sem perfil, afetos ao líder do partido no poder, a ocuparem cargos de chefia.

É inegável que parte da disfuncionalidade existente em todo o setor decorre, também, da situação precária dos profissionais de todos os serviços públicos de saúde. Mal pagos, com carreiras pouco atrativas e desmotivados. Pormenores que podem escapar ao cidadão comum, caso não seja socorrido a tempo num momento de aflição. 

Entretanto, no ano passado, vimos o Presidente do INEM, Luís Meira, a ser reconduzido depois de uma gestão capaz de pôr em perigo cidadãos em grave estado de saúde por falta de socorro urgente. Mormente, ignorou a retirada de 80M€ ao orçamento do INEM, só porque o Min. das Finanças do anterior Governo quis fazer um brilharete. Amortizando com eles a dívida pública e obter um superavit orçamental. Motivo suficiente para Meira se ter posto ao fresco.

Porém, não só não reagiu, como deixou que tudo se agravasse no INEM. Acabando por agora retirar-se, face à sua incompetente gestão. Não por pressão, ou incompatibilidade com a atual tutela da saúde, como alegou, mas por se sentir incapaz. Assim sendo, não se sabe por que motivo este senhor não só não responde pela sua negligência e irresponsabilidade, como vai à sua vidinha, quiçá, para um lugar superior.

Se não é assim, veja-se como António Costa, depois de oito anos a governar o país – de treta – teve o desplante de deixar no caos os serviços públicos, indo presidir à Comissão Europeia. Um invejável tacho de grande fulgor protagonista e pecuniário. Isto, enquanto o paciente povo vai vendo, ouvindo e lendo sobre as patifarias ao bem comum, ou seja, às instituições públicas. O que o deixa angustiado à espera do INEM, enquanto assiste à degradação deste cinquentão regime democrático. 

 

 

Narciso Mendes

Narciso Mendes

8 julho 2024