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OS DIAS DA SEMANA Os indefesos

 


 

 


 


 

Era, como hoje, 7 de Julho. Neste dia, em 1916, em Leipzig, Rosa Luxemburgo escrevia uma carta, começando com uma referência ao calor húmido e opressivo da cidade. É o primeiro dos escritos a Sophie Liebknecht coligidos em Cartas da Prisão, livro acabado de publicar pela Relógio d'Água. Rosa Luxemburgo opunha-se à participação da Alemanha na Primeira Guerra Mundial e, por isso, viria a ser encarcerada, mas estava ainda em liberdade quando envia a breve missiva.

“Esta manhã estive sentada duas horas nos jardins junto ao lago e li O Homem Rico. É um livro brilhante. Uma velhinha veio sentar-se ao meu lado, olhou de relance para a capa e sorriu: ‘Deve ser um belo livro. Eu também gosto de ler livros.’ Antes de me sentar a ler, pus-me naturalmente a examinar as árvores e os arbustos que havia nos jardins – tudo figuras familiares, algo que constatei com satisfação”.

A natureza e a leitura oferecem-lhe um contentamento que contrasta com a progressiva insatisfação que lhe suscita o contacto com as pessoas. “Acho que em breve me vou isolar e tornar-me anacoreta, como Santo Antão, mas desta vez… sans tentations”, escreve ela, antes de se despedir da “querida pequena Sonja”.

Há boas razões para dedicar tempo à leitura. Na carta seguinte, Rosa Luxemburgo indica uma: “Tem de manter a sua cabeça ocupada, caso contrário vai acabar por se deixar consumir pelas ninharias do dia a dia e por uma tensão nervosa sem fim”.

José Tolentino Mendonça revelou no diário italiano Avvenire [1] que um dos textos mais comoventes que conhece é uma destas cartas de Rosa Luxemburgo. Enviada por ocasião do Natal, era, escreveu o cardeal, “o último vislumbre daquele paradoxal ano de 1917, e poucos se arriscavam a dizer com certeza para que destino o mundo estava a ser arrastado”.

José Tolentino Mendonça assinala que Rosa Luxemburgo “sabe ser profética quanto à Alemanha, entrevendo a possibilidade de um ‘pogrom’, mas não o é da mesma maneira em relação à Rússia”, uma vez que não considera que este país possa também perseguir judeus. Não é nisto que se encontra a matéria “que faz da sua carta um ‘documento de humanidade e poesia’, para citar Karl Kraus”. Entre o que há, de facto, de inesquecível na carta, encontra-se o relato de um certo episódio em que outros nem sequer, porventura, reparariam.

Observou Rosa Luxemburgo que um veículo do exército, carregado de mochilas, casacos e camisas vindos da frente de guerra para serem remendados pelas prisioneiras para serem reaproveitados pelo exército, era puxado por uma parelha de búfalos em vez de cavalos. Regista ela que nunca tinha visto estes animais de perto. Depois descreve-os. Eram pretos, de compleição poderosa e com olhos grandes e meigos. Os soldados que os conduzem, segundo a autora da missiva, dizem que é muito difícil capturá-los. Eles estão habituados a correr livremente, pelo que domesticá-los é ainda mais árduo. 

Rosa Luxemburgo fixa o olhar no veículo que vem de tal modo sobrecarregado que os búfalos são incapazes de o fazer avançar através da soleira do portão. O soldado que os conduz, um tipo grosseiro, espancou os pobres animais de maneira tão brutal que a guarda do portão se mostrou indignada, pedindo-lhe mesmo, sem sucesso, que tivesse compaixão pelos animais. O homem tornou-se ainda mais agressivo e os búfalos transpuseram a soleira. Um deles sangrava. Como a pele destes animais é espessa e resistente, facilmente se imagina o nível de maltrato a que foram submetidos para que tivesse sido possível dilacerá-la.

O animal sangrava, mas permanecia imóvel, com os olhos mais dóceis que Rosa Luxemburgo alguma vez tinha visto. José Tolentino Mendonça constata que é nesses olhos que ela “entrevê uma impotência semelhante à de uma criança que tivesse chorado durante muito tempo sem ter sido escutada”.

“Era exatamente a expressão de uma criança que acaba de ser duramente castigada e não sabe por que motivo nem para quê, que não sabe como escapar do sofrimento e da força bruta… Eu estava diante dele, o animal olhava-me, as lágrimas caíam dos meus olhos, eram as suas lágrimas. Diante da dor de um irmão querido é impossível não ser sacudido pela mais dolorosa amargura como eu estava na minha impotência diante deste mudo sofrimento”. José Tolentino Mendonça cita esta passagem da carta para sublinhar que “da empatia que ligava naquele momento uma mulher a um anónimo animal ferido nascia uma nova forma de resistência à brutalidade e à barbárie”.

O narrador de A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, afirmara identicamente que a verdadeira bondade “só pode manifestar-se em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não representam força nenhuma. O verdadeiro teste moral da humanidade (o teste mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao olhar) são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os animais”. Mas os únicos vulneráveis não são os animais. Há outros indefesos (sobretudo os que não carburam a máquina da produção). E a humanidade – a resistência à barbárie, portanto – manifesta-se na atenção e cuidado em relação aos mais frágeis.

Eduardo Jorge Madureira Lopes

Eduardo Jorge Madureira Lopes

7 julho 2024