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Receber, bendizer, dar graças, partir o pão

 

Com razão afirmava Dom António Couto, em Azurém, no dia 14 de junho, que somos «maus leitores e menos ainda releitores da Palavra de Deus». O livro A Eucaristia, o Sacerdócio, e Jesus o Filho é fruto de uma atenta e demorada leitura e releitura «de uma sequência de gestos sobrecarregados de beleza, que uma série de verbos documenta e traduz». (p. 10)

A Igreja é: «um espaço habitado pela Palavra de Deus e também pelo Pão de Deus. O espaço fora da Igreja deve tornar-se sagrado pela ação dos cristãos. Para tal, basta que atentemos nas principais atitudes e gestos que as narrativas da instituição da Eucaristia nos propõem: RECEBER, BENDIZER E AGRADECER, PARTILHAR e DAR, COMEMORAR, ANUNCIAR E ESPERAR. (p. 17)

O gesto belo de Receber, tradução do grego lambánô é o que abre todos os textos. Cita I Cor 11, 23b-26: «… O Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, recebeu o pão, e dando graças, partiu-o e disse: «Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim». Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: «Este cálice é a nova Aliança, no meu sangue; isto fazei sempre que o beberdes, para memória de mim». Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar a morte do Senhor até que Ele venha». (pp. 17-18)

Mais explícito ainda aparece em Mateus 26, 26-29: «Enquanto comiam, tendo Recebido (lábôn) Jesus o pão e tendo bendito (eulogêsas), partiu-o e, tendo-o dado aos discípulos, disse: «Recebei (lábete) e comei; isto é o meu corpo». E tendo Recebido (lábôn) um cálice, e tendo dado graças (eucharistésas), deu-lho, dizendo: «Bebei dele todos; isto é o meu sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados». (p. 18)

Dom António Couto sublinha o alcance deste verbo «receber», pois qualifica a atitude de Jesus em relação ao Pai, de quem recebeu tudo o que tem e é: «Este é o mandamento que recebi (élabon) de meu Pai». (Jo 10, 18). O receber de Jesus em relação ao Pai está em relação com o ‘dar’ do Pai a Jesus. … «A identidade da pessoa do Pai constitui-se em dar tudo ao Filho, assim como a identidade do Filho se constitui em receber tudo do Pai. O Espírito, por sua vez, é aquele que recebe o que é do Filho, e que o Filho recebeu do Pai. E o que recebe, o Espírito anuncia». (Jo 16, 13.14.15). A Eucaristia começa com um imenso movimento de receção». (p. 19).

Faz-nos bem saber que o homem bíblico, que nós somos chamados a ser, «deve viver de mãos abertas, mãos que recebem e dão», pois só o imbecil, como afirma o Talmude, pensa que com o punho cerrado detém o mundo nas malhas da sua rede. A mão que se abre é «como pétalas de uma flor que se abre à vida. E é assim que floresce a inteligência. E quando a mão se abre completamente, é a mão do sábio, que não retém nada, mas conhece o valor do encontro e do dom». (p. 20)

Na consagração, o sacerdote, com as mãos abertas sobre os dons do pão e do vinho, deve ter consciência de que são as mãos de Deus que nada retém para si, mas deixa cair tudo para os seus filhos receberem. «Deus pede emprestadas as minhas mãos. E as nossas mãos ficam cheias com os dons de Deus». (António Couto, Azurém, 14/6/2024)

Receber é nunca fechar as mãos, mas partilhar com os irmãos. É assim que nasce a comunidade cristã. Cada um reparte os dons que tem. Por isso a Eucaristia é uma escola notável de humanidade e para aprendermos a ser irmãos. As traduções tradicionais não são muito felizes ao colocar «tomou» em vez de «recebeu». Pelo que é muito acertada a oração sobre as oferendas: «Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo pão que recebemos da vossa bondade, fruto da terra e do trabalho do homem, que hoje vos apresentamos e para nós se vai tornar pão de vida». E o mesmo para o vinho. «Não se trata de objetos que se entregam ao homem; trata-se de um Tu, o Tu de Deus, que, por amor, vem até ao homem e a ele se entrega por amor, debruçando-se sobre ele e abaixando-se até ao ponto de lhe lavar os pés e a alma, de cuidar dele, de o alimentar, de lhe afagar o rosto, de o ensinara andar», como tão belamente já descreve Oseias 11, 3-4. (p. 21)

Receber é ter: «Mãos abertas para Receber. Para Acolher. Para Acariciar. Para Dar. Para Repartir. Para Partilhar. Receber é, portanto, um grande verbo bíblico, que traduz a maneira de ser de Deus e do homem». Continua António Couto: «É paradigmático que a Bíblia apresente o pecado como a atitude de o ser humano não querer viver mais de mãos abertas, recebendo-se e recebendo tudo de Deus, que dá os frutos ao homem (Gn 1, 29) e queira passar a viver de mãos fechadas, fechado na sua autonomia, manifestada naquela atitude de estender a mão para apanhar, roubar, possuir e comer um fruto de uma árvore, por conta própria e a seu bel-prazer (Gn 3, 6), anulando assim o dom do fruto, para o transformar no furto de um fruto». (p. 22).

No próximo texto falaremos de «Bendizer» e «Dar graças».

Carlos Nuno Vaz

Carlos Nuno Vaz

6 julho 2024