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Uma eleição de perdedores

Cada acto eleitoral é sempre o mais importante, não foi apenas este que no Domingo aconteceu. É sempre assim. Cada um serve para acertar o rumo, os representantes eleitos, os programas de acção e os governos. Apesar de na Europa não haver um governo propriamente dito, o objectivo das Europeias é definir um Parlamento de representantes das inúmeras sensibilidades políticas na geografia europeia que acaba por influenciar e condicionar as diferentes Instituições da União Europeia, os seus programas e os respectivos dirigentes. Em Portugal, as Europeias eram ainda importantes para quem ambicionava eleger algum deputado pela primeira vez, para os que corriam o risco de perder algum ou mesmo a representação que tinham e para os que almejavam ganhar o acto eleitoral. Serviram ainda para se discutirem temas nacionais e acirrar um pouco mais a luta política caseira.

Durante a campanha eleitoral, foram vários os que garantiram que não era viável extrapolar-se das eleições Europeias para o país. Mas, em função dos resultados conseguidos, todos, da forma que melhor serviu os interesses partidários, acabaram por se pronunciar ao sabor dos mesmos. Apesar do momento político ser ainda de início de legislatura, há quem esgrima argumentos e interpretações como se os resultados de Março já não contem e sejam mais importantes os de Domingo último. As consequências vão aparecer daqui a pouco ou, no máximo, no momento de se decidir o Orçamento de Estado para 2025. O Governo não vai ter margem para sobrancerias. O tempo para cobrar vai continuar, mas vai ser mais exigente do que o anterior.

Os resultados estão aí, há perdedores para todos os gostos e são várias as leituras que se já se fizeram dos mesmos. O Partido Socialista (PS) ganhou o acto eleitoral, ainda que tenha perdido um eurodeputado, a Aliança Democrática (AD) foi segundo, ainda que contasse com a circunstância de ter ganho as Legislativas há pouco tempo e ser governo fresco, o Chega aguentou-se em terceiro e o Iniciativa Liberal foi quarto, o único partido que conseguiu crescer. A esquerda mais vermelha perdeu ainda mais representação.

O PS, pela voz do seu secretário-geral, já veio dizer que o partido “é hoje a primeira força política em Portugal”. Será? Os portugueses já terão emendado a mão em tão pouco tempo relativamente à escolha do governo da Aliança Democrática? Será que se expressaram assim para evidenciar a sua inconformidade com o facto de Montenegro teimar em ter um governo minoritário e, por isso, instável, ao ponto da oposição mais incompatível se entender? E o bipartidarismo, posto em causa nas legislativas de Março, acabou mesmo? O Chega escorregou ao comprido, isso é evidente, mas será que perdeu apoio popular por causa do alinhamento interno com o PS em várias decisões parlamentares ou o reforço de insatisfeitos e revoltados que teve nas Legislativas não compareceu nestas? Cotrim de Figueiredo, o único vencedor da noite eleitoral, conseguiu dupla representação na Europa ou terá dado um novo e significativo impulso ao Iniciativa Liberal? Será que o resultado vai fazer com que volte mais à frente à liderança do partido que fundou? Finalmente, será “humildade democrática” da Aliança Democrática admitir que “faltaram [...] 0,9% para ficar à frente de Marta Temido”? Será que os portugueses não perceberam a catadupa de medidas que o Executivo anunciou durante a campanha eleitoral para os cidadãos em geral? Perder ainda que por pouco não faz de ninguém vitorioso. Pelo contrário, deve levar a uma reflexão séria e consequente para que os impactos na governação não sejam maiores.

Luís Martins

Luís Martins

12 junho 2024