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Os números contam

Numa projeção recente, a ONU estima que a população da Terra cresça até um número acima dos 10.000 milhões de pessoas por 2100, iniciando-se então uma fase de planalto, porventura breve, que confluirá na posterior decadência do enorme quantitativo demográfico atingido. 

Dissonante, e mais otimista, uma previsão do designado Clube de Roma arrisca que será já por 2050 que se verificará o máximo populacional no planeta Terra, com cerca de 9.000 milhões de pessoas, iniciando-se então a fase de retração.

Em qualquer dos cenários, África, particularmente abaixo do Sara, deverá manter-se como o continente com crescimento populacional mais prolongado no tempo.

Nos dias recentes, o dilúvio no Rio Grande do Sul, no Brasil, compõe boa parte do noticiário relativo a dramas ambientais. Não faltarão nas memórias do leitor registos de secas ou inundações ocorridas recorrentemente em geografias diversas. Todavia, um mínimo de bom senso coloca-nos perante a perceção – alargadamente suportada por múltiplos estudiosos do fenómeno – de que a degradação ambiental é um facto, marcada por temperaturas repetida e duradouramente estacionadas nos dois extremos da escala do termómetro. 

Para lá do nosso modo de vida na sociedade industrial que envolve hoje quase todo o Planeta, o simples facto de existirmos torna-nos num fator de degradação ambiental (esgotos, lixo, intrusão nos habitats dos animais, uso intenso, e ainda prevalecente, de combustíveis fósseis para nos aquecermos ou para nos movimentarmos). 

A perspetiva de um freio no crescimento demográfico constitui-se, pois, numa boa notícia para a Terra, numa perspetiva global. Obviamente, que atenta a disparidade dos perfis demográficos observados no mundo atual (com uma Europa progressivamente mirrada e encanecida, em parceria com o Japão, e com uma América em desaceleração notória, tal como Ásia), a situação desperta análises divergentes. 

Inimaginável para Malthus, aquando da publicação do seu “Ensaio sobre a População” (1798), que a Terra – então com cerca de 900 milhões de habitantes, estima-se hoje –pudesse vir a suportar os atuais 8000 milhões de habitantes ou, mais ainda, os eventuais dez ou onze mil milhões de um futuro próximo. 

A despeito das mais sombrias profecias aventadas por Malthus perante um eventual cenário de crescimento demográfico imparável no mundo, a verdade é que a Europa de hoje, por exemplo, permite-se conferir um muito mais vasto conjunto de cidadãos assinaláveis padrões de vida. 

Mantém-se, todavia, incontornável o juízo de que num planeta Terra finito não podemos ter uma população que cresça indefinidamente. Claro, a memória da recente pandemia serve para nos lembrar que a natureza pode sempre pregar-nos uma partida que venha a redundar numa hecatombe demográfica – facto que desta vez não se verificou, mas que a melhor ciência, designadamente através da investigação vacinal, não pode garantir que nunca sucederá. Esse foi, aliás, o tipo de “correção natural” que vigorou durante o modelo demográfico de Antigo Regime (1500-1800).

Para lá de mudanças comportamentais individuais, do incremento de fontes de energia mais limpas nas nossas casas, na produção e nos transportes – arrastando uma menor poluição agregada –, o simples facto de bloquearmos o crescimento da demografia mundial constituir-se-á num grande contributo para o combate à desregulação climática.

Não obstante as resistências dos mais reacionários, daqueles que acreditam na imparável capacidade de regeneração do nosso Planeta a despeito de todos os ataques ao seu equilíbrio, a simples perspetiva de uma Terra que deixe de crescer em termos demográficos num futuro relativamente próximo induz uma aceitável expectativa de que poderemos vir a travar a catástrofe ambiental global (com reflexos positivos nos humanos, mas também na vida selvagem e na natureza em geral). 

Assim mesmo, serão os sobreviventes da próxima geração, ou da seguinte, quem estará em melhores condições para aferir, ou não, da travagem desta degradação ambiental. Num futuro próximo, menos povo poderá significar melhor mundo para o povo.

Amadeu J. C. Sousa

Amadeu J. C. Sousa

17 maio 2024