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Braga: Mobilidade e Futuro

As cidades transformaram-se em palcos de uma crise silenciosa mas asfixiante. A proliferação automóvel, ao mesmo tempo que desenha a geografia da liberdade moderna, perpétua paradoxos insustentáveis: por um lado, a autonomia do ir e vir; por outro, a clausura em congestionamentos intermináveis, sob um manto de poluição que obscurece tanto o céu como a razão.

Na Europa, o sector dos transportes alastra-se como um dos principais responsáveis pelas emissões de gases com efeito de estufa, sendo gerador de um quarto das emissões poluentes de todo o Continente.

As cidades, esses conglomerados de história e de futuro, onde cada esquina respira o passado e antecipa o porvir, estão agora sufocadas pelo tráfego que as define e, ao mesmo tempo, as restringe.

Em Braga, essa realidade não é mera abstração. A cidade, plena de história, de património, vê-se agora refém do presente que ela própria cultivou: ruas abarrotadas onde o ar pesado de dióxido de azoto conta histórias de inação política, de falta de coragem reformista, de planeamento urbano desatualizado e de ausência ambição transformadora rumo a um Concelho mais verde, mais limpo e com uma visão de progresso e desenvolvimento mais sustentável.

Nos últimos onze anos, a ausência de estratégias eficazes para a mobilidade urbana por parte do Município deixou a cidade presa num ciclo vicioso de tráfego e poluição, comprometendo não apenas a saúde pública, mas também a qualidade de vida dos seus habitantes, de todos nós.

Para romper com esta inércia, Braga, tal como outras cidades, necessita de uma visão renovada que olhe para além do imediatismo eleitoral.

É imperativo adotar medidas audaciosas e criativas. A implementação de zonas de baixas emissões, já testadas em Londres com as ULEZ (Ultra Low Emissions Zone ou Zonas de Emissão Ultra Baixa, são áreas onde se aplicam restrições mais rigorosas à emissão de gases poluentes gerados por veículos, de forma a melhorar a qualidade do ar). A expansão, melhoria e modernização das redes de transportes públicos, o incentivo ao uso de bicicletas e a reorganização do espaço urbano, com maiores e melhores áreas pedonais, mais limpas e seguras, são passos fundamentais para reconfigurar a relação dos bracarenses com o seu ambiente.

Ademais, vale a pena, também, reflectir sobre a importância de integrar habitação acessível nas proximidades das áreas de maior concentração de emprego, como forma de ajudar a diminuir a dependência do automóvel, a necessidade de deslocações longas e frequentes em veículos pessoais, mitigando assim a pegada de carbono urbana e, por conseguinte, as emissões poluentes. Não esquecendo, ainda, a importância do urbanismo projectar uma nova consciência na relação casa/trabalho, reconhecendo que o desenvolvimento sustentável é inseparável de uma mobilidade eficiente e ecológica.

Em última análise, a redefinição da mobilidade em Braga, e noutras cidades, não se resumirá nunca, apenas, a uma escolha técnica, política ou partidária; é e será, sobretudo, uma decisão ética e de responsabilidade colectiva sobre o tipo de ambiente que queremos legar às gerações futuras. 

A qualidade do ar que respiramos, o espaço que partilhamos e a serenidade dos nossos dias não são “commodities” negociáveis, mas direitos que devemos saber defender com coragem e visão. É tempo de agir.

Pedro Sousa

Pedro Sousa

15 maio 2024