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A mudança de ciclo não se faz com testes de algodão

De acordo com as várias sondagens conhecidas, os portugueses inclinam-se, ora para uma mudança de ciclo, o que significará mandar o Partido Socialista (PS) para a oposição, ora para a continuidade do PS ao leme do governo numa versão actualizada do que tem sido a gestão do país desde 2015. Não se prevê, no entanto, que haja maioria absoluta de nenhum dos maiores partidos. A maioria parlamentar deverá ser formada por combinações de vários partidos ou coligações. À esquerda, Pedro Nuno Santos já disse que pode coligar-se em momento pós-eleitoral, sem pruridos, com qualquer dos partidos à sua esquerda, desde que a soma dos votos e dos deputados constitua uma maioria. O objectivo em governar é mais forte do que ser selectivo nas parcerias. À direita, Luís Montenegro, mais exigente, mais esquisito ou, quiçá, mais temeroso, por ter sido encostado às cordas, tem confirmado que não governará com o Chega. 

À direita e à esquerda, o objectivo é que o Chega seja única e simplesmente utilitário, nunca que participe na solução governativa. Veremos se será suficiente. Do lado socialista procura-se colar o Chega aos sociais democratas, procurando angariar os votos de quem não suporta a solução. Do lado da Coligação e da IL remetem o partido de Ventura para o colo do PS, ainda que, em jeito de chantagem, desafiem o Chega a viabilizar um governo minoritário do PSD/CDS/PPM e da IL. Será que o Chega se conformará com esse desígnio que lhe tem destinado a restante direita? Esse não é, pelo menos, o objectivo de quem vota no Chega, e não serão poucos os eleitores que apostarão no partido de Ventura, ainda que por protesto e sem convicção. 

A estabilidade faz-se com mandatos e responsabilidade e esta exige abertura à negociação. Em 2015, o PS começou por cobrir o número de mandatos insuficientes com abertura à negociação com parceiros à sua esquerda. Houve estabilidade. Com a maioria absoluta de 2022, o número de parlamentares a assegurar a defesa das medidas do governo não foi suficiente para garantir estabilidade e o que parecia sólido desfez-se. A confirmarem-se as sondagens que se conhecem, estará muito longe uma maioria absoluta de qualquer partido, seja à direita, seja à esquerda. No caso de haver um maior número de portugueses a querer mudar, isto é, a votar à direita, cansados dos últimos governos socialistas, significará que haverá condições de se formar, depois de 10 de Março, um governo liderado por Luís Montenegro. Resta saber com que configuração, se incluirá ou não a Iniciativa Liberal e qual será o papel do Chega. 

Uma coisa parece certa: o Chega será determinante nas legislativas nacionais, como será, entretanto, nas regionais dos Açores. A coligação de direita açoriana não tem representatividade parlamentar suficiente, pelo que vai ter de chegar a algum tipo de acordo com outros deputados, em concreto, com os do Chega. O teste de algodão de que fala Montenegro, no momento “em que se vai votar no Parlamento regional o programa de governo”, não será suficientemente mágico ao ponto de assegurar estabilidade ao governo de Bolieiro. E assim poderá acontecer no caso da Aliança Democrática vencer as legislativas de Março sem maioria absoluta, o que é bastante provável. O Partido Socialista já se pronunciou e já disse que, nessas condições, não estenderá a passadeira a Montenegro. Nessa altura, se arriscar fazer o “teste de algodão” ao Chega, sem mais, Montenegro pode ficar espetado no prego escondido entre o algodão. Ele só será primeiro-ministro, como afirmou, “se for escolhido pelos portugueses e ganhar as eleições” e se os mandatos que estiverem do seu lado lhe “puderem dar condições de governabilidade”. Com a esquerda significativa a reprovar-lhe o Programa de Governo, não serão os mandatos da IL a salvá-lo do chumbo. Vai ter que, ao invés do “teste de algodão”, seguir por outro caminho, que a realidade é sempre mais poderosa do que a imaginação.

Luís Martins

Luís Martins

13 fevereiro 2024