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Entre a humildade e a caridade

No próximo sábado, dia 4 de novembro, celebra-se a Memória Litúrgica de S. Carlo Borromeo. Filho de Gilberto Borromeo e de Margherita de Medici, nasceu em Arona1, no dia 2 de outubro de 1538, e aí cresceu. Com apenas 12 anos, recebeu o título de “comendatário” de uma abadia beneditina, o que lhe proporcionava uma renda considerável que, contudo, destinou à prática da caridade. Fez os seus estudos de Direito Canónico e Civil em Pavia, cidade onde se registava. um significativo desenfreamento dos costumes. Adestrado nas ciências, Carlo não se desviou das virtudes.

Quando o seu tio foi eleito Papa, com o nome de Paulo IV (1559-1565), Carlo foi chamado a Roma, onde desempenhou um importante papel na gestão dos negócios da Santa Sé. Tendo falecido o seu irmão mais velho, voltou a Milão, onde foi ordenado sacerdote, em 1563. Dois anos depois, com apenas 27 anos de idade, foi feito bispo e assumiu a orientação pastoral da diocese de Milão, onde passou a viver, colocando em prática as determinações do Concílio de Trento2 que obrigavam os Bispos a residir nas suas dioceses. Foi na condição de Arcebispo de Milão que participou nas duas últimas sessões do referido Concílio. Foi um dos principais promotores da Contra-Reforma e colaboradores na redação do Catecismo Tridentino.

A par de D. Frei Bartolomeu dos Mártires, Arcebispo de Braga, seu contemporâneo, foi um dos primeiros bispos a fundar seminários para a formação dos futuros padres. Os regulamentos que escreveu para os seminários que fundou foram replicados por outros bispos e serviram de orientação para os seminários de muitos países da Europa.

Defendeu a Igreja contra as ingerências dos poderosos e renovou as estruturas eclesiais. Apelou aos Pastores para que se entregassem à penitência e à oração. É célebre, a propósito, a frase que muitas vezes repetia: “As almas devem ser conquistadas de joelhos”. Diz o Papa Francisco ser desejo de Carlo Borromeo que “os pastores fossem servos de Deus e pais do povo, especialmente dos pobres” (Audiência à Comunidade do Pontifício Seminário Lombardo em Roma, a 25 de janeiro de 2016).

Por 1570, abateu-se uma epidemia sobre a cidade de Milão e o seu arcebispo não poupou esforços para ajudar os doentes e os pobres. Foi tal a sua presença entre o povo que a referida epidemia ficou conhecida como a “praga de S. Carlos”. Cinco séculos depois, Alessandro Manzoni faz-lhe referência, no seu romance I promessi sposi (Os noivos).

Dado que desejava ardentemente rezar diante do Santo Sudário, em 1578, os duques de Savóia decidiram trasladá-lo do Castelo de Chambéry, na França, para Turim, onde ainda hoje se encontra. Carlo Borromeo deslocou-se de Milão a Turim, em peregrinação a pé, durante quatro dias, jejuando e rezando.

Faleceu em Milão a 3 de novembro de 1584, com 46 anos de idade. Os seus restos mortais encontram-se na Cripta da Catedral de Milão, no chamado Scurolo (urna), coberto com painéis de prata que descrevem a sua vida.

Foi beatificado pelo Papa Clemente VIII, a 1 de setembro de 1602, e canonizado pelo Papa Paulo V, a 1 de novembro de 1610. É o santo protetor dos catequistas3.

O que dele afirmou o Papa Bento XVI, na Audiência do Angelus, no dia 4 de dezembro de 2007, pode servir de inspiração a todos os Pastores da Igreja: “Sua figura destaca-se como modelo de pastor pela caridade, doutrina, zelo apostólico e sobretudo pela oração. Dedicou-se por completo à Igreja ambrosiana: visitou-a por três vezes; convocou seis sínodos provinciais e onze diocesanos; fundou seminários para formar uma nova geração de sacerdotes; construiu hospitais e destinou as riquezas de família ao serviço dos pobres; defendeu os direitos da Igreja contra os poderosos; renovou a vida religiosa e instituiu uma nova Congregação de sacerdotes seculares, os Oblatos. (...) Seu lema consistia numa só palavra: “Humilitas”. A humildade impulsionou-o, como o Senhor Jesus, a renunciar a si mesmo para fazer-se servo de todos”.

1 Nesta cidade, situada nas margens do Lago Maggiore, perto de Milão, há uma estátua de S. Carlo Borromeo, construída no século XVII, com 35 metros de altura, incluindo a base. A escultura em cobre e ferro representa o Arcebispo de Milão a abençoar. A particularidade deste monumento é que pode ser visitado por dentro, através de uma longa escadaria. Quem consegue subir os numerosos degraus, pode admirar a envolvência, através de duas aberturas nos olhos, sugerindo que olhemos o mundo como o olhou o santo: com caridade e humildade.
2 O Concílio aconteceu entre 1545 e 1563. Na terceira sessão (1562 e 1563), participou também D. Frei Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga à época. 
3 Em Portugal, cede esse lugar a D. Frei Bartolomeu dos Mártires.

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

30 outubro 2023