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A terceira idade

O Dia Internacional do Idoso comemorou-se a 1 de outubro (já o Dia Mundial da Terceira Idade celebra-se a 28 de outubro).

Não constitui novidade nenhuma para ninguém o facto de a população mundial se encontrar num dilema demográfico. De facto, a população mundial continua a crescer, mas também a envelhecer. O crescimento da população resulta assim da combinação destes dois fatores. Em determinadas regiões do globo (África, Médio Oriente, por exemplo) a taxa de natalidade é muito elevada. Noutras, como seja o caso da nossa Europa, a taxa de natalidade baixou significativamente nas últimas décadas, mas a esperança média de vida aumentou imenso, fruto da melhoria das condições de vida. Em muitos países europeus, a esperança média de vida é hoje superior a 80 anos (embora tenha havido um recuo com a pandemia de Covid 19). Esta bipolaridade, só por si seria motivo para uma grande discussão. Mas foquemo-nos no envelhecimento. O país mais envelhecido do mundo é atualmente o Japão, seguindo-se a Itália. Portugal anda já muito perto deste pódio. 

O envelhecimento demográfico em Portugal continua a acentuar-se. Em 2022, o índice de envelhecimento, que compara a população com 65 e mais anos (população idosa) com a população dos 0 aos 14 anos (população jovem), atingiu o valor de 185,6 idosos por cada 100 jovens (181,3 em 2021)

A população idosa contém dentro de si um repositório de conhecimento, experiência, bondade, bom senso e muitas outras qualidades, que a tornam única e merecedora de todo o apoio e carinho que lhe possamos dar. Por outro lado, é nesta fase da idade das pessoas que os problemas socioeconómicos assumem maior importância. 

De facto, as dimensões rendimentos, saúde, afetos, atingem aqui uma preocupação acrescida. A população idosa possui normalmente menos rendimentos, na medida em que deixando de fazer parte da população ativa, depende essencialmente das pensões, reformas e subsídios para subsistir. Por outro lado, é neste período da vida que os problemas de saúde se começam a fazer sentir com maior acuidade, levando a que os gastos em cuidados de saúde, médicos, medicamentos e tratamentos consumam uma fatia considerável do seu orçamento.

Se a tudo isto somarmos as questões afetivas, as relações e as questões familiares, o problema pode ainda ser maior. De facto, a solidão é um dos problemas de que os idosos mais se queixam e tudo o que possa ser feito para a minorar é bem-vindo.

De facto, conjugando estas três dimensões, o fundamental nesta fase da vida é, não apenas o número máximo de anos que se consegue viver, mas sobretudo, o número máximo de anos de vida que se consegue viver com qualidade, com vitalidade e atividade. Obviamente que para isso é necessário saúde, rendimentos adequados e uma teia de relações ao nível dos afetos.

Quanto mais felizes forem os nossos idosos certamente que mais feliz será a sociedade em que eles se inserem. E isso é da responsabilidade de todos. O adágio “filho és, pai serás” comporta uma enorme sabedoria e deve fazer-nos refletir. Quanto melhor tratarmos os nossos idosos hoje, vai contribuir para sermos também bem tratados mais tarde, quando passarmos para esse estádio da nossa vida.

É evidente que as instituições, o Governo e a própria lei, procuram criar mecanismos que assegurem o respeito pelos direitos deste grupo populacional.

A Constituição da República Portuguesa consagra o artigo 72.º aos direitos da terceira idade afirmando que “as pessoas idosas têm direito à segurança económica e a condições de habitação e convívio familiar e comunitário que respeitem a sua autonomia pessoal e evitem e superem o isolamento ou a marginalização social”, acrescentando ainda o número dois que “a política de terceira idade engloba medidas de carácter económico, social e cultural tendentes a proporcionar às pessoas idosas oportunidades de realização pessoal, através de uma participação ativa na vida da comunidade”.

O próprio mercado de bens e serviços também está a mudar. Vejamos que curioso é o facto de os próprios anúncios publicitários estarem cada vez mais focados neste nicho de mercado (a população sénior), oferecendo produtos e serviços voltados para a satisfação das necessidades da terceira idade. São os suplementos de vitaminas, cálcio, potássio e magnésio; são os elevadores adaptados às escadas; são os serviços de assistência no domicílio; são as residências e lares cuja oferta é cada vez maior. Não há dúvidas que, tendo condições económicas satisfatórias, os idosos possuem hoje bens e serviços que podem proporcionar uma qualidade de vida impensável até há bem poucos anos atrás. 

Contudo não nos iludamos, a grande questão está sobretudo nos afetos, nas relações. Amemo-nos uns aos outros sim, mas amemos sobretudo os idosos que, no ocaso das suas vidas, normalmente é apenas isso que pretendem.

Fernando Viana

Fernando Viana

28 outubro 2023