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«Mato, logo existo»?

Empiricamente, o ciclo natural seria nascer, viver e morrer. 
Infelizmente, para milhões de irmãos nossos, há um ciclo desnaturado, que consiste em nascer, viver e…ser morto.

 

 

O ser humano, que nunca terá aprendido verdadeiramente a «saber viver», tem revelado uma mórbida perícia em «saber matar».
E, pelo que nos é dado ver, há conflitos que se mostram empedernidamente irresolúveis.

 

 

Às cerca de 60 guerras que já torturavam o mundo agregaram mais duas que ameaçam tornar-se intermináveis e de consequências devastadoras.
Na Ucrânia, as hostilidades perduram há mais de um ano e meio, sem desfecho à vista. No Médio Oriente, a violência — que, a bem dizer, nunca cessou — reacende-se agora com uma amplitude feroz, porventura jamais imaginada.

 

 

 A pernóstica convicção de que se consegue exterminar o antagonista ignora os ímpetos de resistência deste. 
Paradoxalmente, os litigantes, que se apresentam como opostos, mimetizam os comportamentos. E a «contraviolência» não menoriza a violência.

 

 

Ao ataque responde-se com ataque, às vítimas replica-se com mais vítimas. 
O ódio cresce e o ressentimento não prescreve. Haverá quem possa conclamar vitória no meio de uma tragédia sem fim?

 

 

As vozes que invocam a paz são sumariamente menosprezadas. E não há qualquer apelo à razão – e à compaixão – que pareça surtir efeito.
Como adverte Byng-Chul Han, «a humanidade está afectada por uma cegueira mortal». Nenhum outro ser vivo «é capaz desta fúria destrutiva cega».

 

 

Lamentavelmente, olhamos de cima, com altivez. Só que, como explica Gonçalo M. Tavares, «quem olha de cima não vê; julga». E, quase sempre, mal.
A humanidade vai agonizando entre clamores pela justiça e uma insaciável sede de vingança. Com a agravante de que a vingança é indiscriminada, pois «mata pessoas não envolvidas», inocentes.

 

 

Não se matam apenas inimigos. A morte vai abatendo sem dó nem critério. Até as crianças e os idosos são barbaramente aniquilados.
É sabido que os envolvidos nas guerras acumulam muito dinheiro. E «o dinheiro acumulado confere a quem o possui o estatuto de predador».

 

 

Acontece que esta incoercível pulsão para matar desapieda, petrifica, desfraterniza e desumaniza. 
Os artesãos da paz são apodados de líricos, a pairar nos etéreos devaneios da «utopia». Uma coisa, porém, é certa. Estancaremos o fluxo da morte matando?

 

 

É verdade que não se refunda a humanidade de uma vez. Mas empreendamos já – ao ritmo de uma preambular «protopia» – na mudança de rumo. 
Dado que nos interditam mundos melhores, que ao menos, como reclama Tony Judt, «não nos impeçam de prevenir mundos piores». «Mato, logo existo» é que nunca mais!

João António Pinheiro Teixeira

João António Pinheiro Teixeira

24 outubro 2023