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Estrangeiros, viúvas e órfãos

 

A Primeira Leitura do próximo Domingo – XXX do Tempo Comum – apresenta uma ordem divina que reclama a nossa melhor atenção: “Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás, porque vós fostes estrangeiros na terra do Egito. Não maltratarás a viúva nem o órfão” (Ex 22, 20-21)1. Tratando-se apenas de um entre os muitos textos que, na Sagrada Escritura, consagram a dignidade destas pessoas, não deixa de chamar a atenção para as suas difíceis condições de vida, à época a que o texto se reporta ou em que foi escrito.

Se, a estes três grupos, acrescentarmos o pobre, eis-nos perante a enumeração das “personae miserabiles”, em difícil situação jurídica, social e económica (Ex 23, 9; Lv 19, 10; 23, 22). Dt 16, 11 inclui os levitas, seguramente pelo facto de a centralização do culto em Jerusalém ter deixado muitos deles sem trabalho.

Por vezes, o termo estrangeiro equivale a pagão, gentio ou adorador de deuses falsos (2 Mc 10, 2.5) e alguns livros proféticos até contêm oráculos (maldições) contra as nações estrangeiras (Is 13-23; Jr 46-51). A maior parte das vezes, contudo, refere-se a alguém que vem de fora ou que, não fazendo parte do povo, vive em Israel2. Contudo, entrando ou vivendo na comunidade, tinha direito à hospitalidade (Gn 18, 1-15).

Segundo os códigos da lei israelita, os estrangeiros, as viúvas3 e os órfãos deviam ser respeitados e assistidos (Dt 14, 28-29: “Ao fim de três anos, tirarás o dízimo completo da colheita desse ano e depositá-lo-ás na tua cidade, para que o levita, que não tem parte nem herança contigo, o estrangeiro, o órfão e a viúva, que estão dentro dos muros da tua cidade, possam comer e ficar saciados”4; Jr 22, 3: “Praticai o direito e a justiça e livrai o oprimido das mãos do opressor. Não deixeis o estrangeiro sofrer vexames e violências, nem o órfão nem a viúva”). Aliás, é assim que Deus procede com eles (Ex 22, 20; 23, 9; Dt 10, 18), escutando as suas orações (Sir 35, 14: Deus “não desprezará a oração do órfão nem os gemidos da viúva”) e intervindo em seu favor: “Ele faz justiça ao órfão e à viúva, ama o estrangeiro e dá-lhe pão e vestuário” (Dt 10, 18). 

Também o Novo Testamento determina que se honre as viúvas (1 Tm 5, 2) e atesta o cuidado da primitiva comunidade cristã em seu favor (At 6, 1-7). Vai ao ponto de afirmar que “a religião pura e sem mácula diante daquele que é Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas, nas suas tribulações” (Tg 1, 27).

 A primeira leitura do próximo domingo é por demais atual e pertinente, pois são cada vez mais os estrangeiros entre nós e é cada vez maior a xenofobia que alguns grupos sociais e políticos lhes devotam. Também é atual e pertinente porque há, entre nós, muitas viúvas, órfãos e pobres que reclamam a nossa proteção e ajuda. Ser cristão implica mão ficar insensível, antes deixar-se tocar por estes “gritos” e comprometer-se, de modo efetivo, com os problemas e necessidades dos estrangeiros, das viúvas, dos órfãos e dos pobres. 

 


1 Numa sociedade em que a família era considerada propriedade do seu chefe, quando este morria, as viúvas e os órfãos ficavam sem proteção e sem direitos, presa fácil da exploração.
2 O estrangeiro podia viver em Israel como hóspede temporário (ger) ou como residente permanente (toshab).
3 As viúvas deviam vestir-se de luto (sem especificar a cor da roupa, Gn 38, 14 e Jd 10, 3 usam a expressão “vestes de viúva”) e abster-se de perfumes durante um certo tempo, após a morte do marido (2 Sm 14, 2). Se não tivesse filhos, tinha direito ao casamento do levirato ou a regressar à casa paterna (cfr. Rt 1, 8; Gn 38, 11). A lei do levirato (do latim levir, cunhado) prescrevia que, se um homem casado morresse sem deixar descendência, o seu irmão ou parente mais próximo devia desposar a viúva. O primeiro filho nascido desse casamento recebia o nome do defunto e era considerado seu herdeiro (Dt 25, 5-10). À parte isso, era possível, mas não frequente, um segundo matrimónio. Para evitar imoralidades, Paulo recomenda-o às viúvas jovens (1 Tm 5, 13-15). 
4 Algo semelhante se diz, em Dt 24, 17-19: “Não violarás o direito do estrangeiro e do órfão, nem receberás como penhor o vestido de uma viúva. Lembra-te que foste escravo no Egito e que o Senhor, teu Deus, dali te libertou. Por isso, te mando que cumpras esta ordem. Quando fizeres a ceifa do teu campo e te esqueceres de algum feixe, não voltes atrás para o levar. Deixa-o para a estrangeiro, o órfão e a viúva, a fim de que o Senhor, teu Deus, abençoe todas as obras das tuas mãos”. O texto que se segue recomenda a mesma atitude em relação ao que restar da apanha da azeitona e da vindima (vv. 20-22).

 

Pe. João Alberto Sousa Correia

Pe. João Alberto Sousa Correia

23 outubro 2023