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“Ensaios”

 

Uma das medidas revolucionárias de proteção ambiental levada a cabo na capital do reino, deveu-se ao Marquês do Pombal, logo após o terramoto de 1755. A construção de uma rede de esgotos, que até aí não havia, dado que as pessoas despejavam para a rua quer as águas domésticas, quer as das suas necessidades fisiológicas. Estando os transeuntes sujeitos a levarem um banho de água choca, caso não ouvissem o aviso de: “agua vai”. Longe vinha, ainda, a moda do ativismo. 

Ora, se tudo aquilo a que hoje assistimos no combate às alterações climáticas, fossem atitudes bem pensadas e estrategicamente planeadas, outro galo cantaria. Mas não. Há pessoas que se deixam telecomandar à distância, não raciocinam, nem medem aquilo que estão a fazer. Pelo menos é este o meu entendimento quanto às barbaridades que cometem. Eu sei que tudo isto anda devagar e o relógio avança, mas não é possível mudar, de repente, a organização económica implantada no terreno nem acabar com tudo que faz girar a vida do país.

Depois, há um outro aspeto. Se todo este movimento contestatário fosse proveniente da essência genuína do voluntarismo jovem, estaríamos todos de acordo. Mas, pelo que sei, não é. E porquê? Porque existe uma certa farsa, bem engendrada, com fins ocultos para outros voos político-estratégicos de gente que comanda o radicalismo no mundo. Até porque não acredito que alguns dos novatos ativistas tenham deixado de viajar em transportes movidos a combustíveis fósseis, como automóveis e aviões. 

 Em democracia temos de respeitar quem está empenhado na causa pela qual luta. Nem é isso estou a pôr em causa. Discordo é dos métodos adotados na contenda que acabam por, em nome da defesa ambiental, criarem mau ambiente social. Ou seja: bloquear o trânsito, despejar tinta em ministros, obras artísticas, monumentos, partir vidros em locais onde se discutem formas de energias alternativas (não poluentes) e o que mais se verá. 

Efetivamente, não acredito que essas cabecinhas pensadoras alguma vez tenham deixado de se servir das novas tecnologias alimentadas a lítio e outros minerais ricos, cuja extração corrói e contamina o solo do planeta. Cujas minas a céu aberto são um autêntico pesadelo para quem habita nas proximidades. 

 Pena é que sejam precisos organismos, como a “climáximo”, para que os nossos governantes acordem e acelerem o passo no sentido de tudo fazerem para atingirem as metas a que se propõe; que os nossos jovens se vejam tentados a entrarem na onda em defesa do planeta e do seu futuro. Já que de discursos está o mundo saturado o que, de certo modo, defrauda as espectativas de quem pretende estas questões resolvidas para ontem. 

Se estavam à espera de fortes medidas do atual Governo, ele acaba de “ensaiar” uma bem radical neste Orçamento de Estado. A de agravar o Imposto Único de Circulação para os veículos cuja matrícula seja anterior a 2007. E já todos sabemos qual a razão. Porque a reboque de pretender acabar com a emissão de gases de efeito estufa, vai arrecadar uma pipa de massa. E de quem são estes carros? Exatamente dos mais pobres; daqueles que não têm orçamento, nem apoio, para adquirirem um caríssimo carro elétrico, mas que precisam do que têm para trabalhar.

 Obviamente que se esta leva de agitadores – por vezes detida pelos seus atos de vandalismo – só porque exige um mundo mais consciente dos problemas ambientais, por que razão não segue as práticas da Greta Thunberg? Não precisou delas para chamar a atenção do mundo. E se assim é, não seria mais profícuo ir para as escolas e empenhar-se a fundo em estudar soluções que mitiguem os problemas ambientais, desde que sustentáveis para a vida das pessoas? Dá muito trabalho pôr os neurónios a funcionar, não é?

 O que me leva a concluir que Portugal está perante alguns “ensaios”, tendo em vista a desgraceira que sem tem verificado em Paris. Com a destruição de património público e privado. Uma espécie de tirocínio em violência para acabar com a paz social. 

 

Narciso Mendes

Narciso Mendes

23 outubro 2023