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Um exemplo de resiliência em dias de turbulência

 

É no mínimo notável, perante tanta Indiferença, ver um município como Valongo distinguir-se na promoção de valores que deveriam ser comuns às boas práticas locais e, no entanto, aí está a exceção de quem soube desenvolver em defesa um trabalho sério em prol da “Democracia local”. Para os que estiveram desatentos, a SEDL – Semana Europeia da Democracia Local decorreu entre 15 e 21 deste mês naquela cidade do distrito do Porto. A iniciativa, organizada pela autarquia local, pelo decimo ano consecutivo, tem a particularidade de ser vivida e experienciada de forma natural que é assim que tem de ser, ou seja, a autarquia local, conseguiu transformar e incluir a exceção no que devia ser uma atitude normal para qualquer autarquia. Infelizmente, no nosso país, é tudo ainda difícil e a Democracia local deixa muito a desejar. Este ano foram as crianças a estarem no centro das atenções, com várias iniciativas a pensar numa “cidade melhor para todos”. Inspirada pelo Conselho Europeu, que todos os anos elege um tema para reflexão, Valongo debateu anteontem o que lhe foi proposto: “local communities: putting democratic resilience at the forefront; ou seja, comunidades locais: colocar a resiliência democrática na vanguarda”. Coube a Francesco Tonucci, psicopedagogo abordar esta capacidade de resistência no centro do debate com a defesa de uma conceção de cidade pensada não apenas como amiga das crianças, mas das crianças e para as crianças, acabando ou limitando os “corpos estranhos” que ocuparam os espaços, coartando a liberdade das pessoas sujeitas a mais semáforos vermelhos do que verdes. Mais interessante, ainda, que o próprio debate foi a tomada de posse para o segundo mandato do Conselho das Crianças de Valongo e o seminário inaugural do projeto “Empoderar vozes jovens” sobre o papel vital que os jovens desempenham na vida pública. Há neste programa vasto e diversificado, uma iniciativa interessante, por ser rara, para não dizer inédita: um curso breve de cidadania local. Faz tanta falta a tão boa gente que por aí anda que me atrevo a lançar o desafio para que nasça em Braga idêntica formação/sensibilização para algo tão básico. Mais poderia escrever aqui sobre Valongo e a sua excecionalidade. Mas algo saltou à vista em torno deste projeto que entristece qualquer um: “soube desta notícia, infelizmente, através de meia página paga como publicidade, na abertura do destacável “Classificados” do Jornal de Notícias. Foi necessário gastar dinheiro para pagar o anúncio de algo tão básico. Sabemos bem que para muitos OCS, o destaque continua a ser a violência gratuita, betizada e mediática de uns quantos jovens, nos arcanjos da capital. Feito o elogio à Ágora de Valongo e de tantas outras que por aí se fazem e desconhecemos, seria bom que os municípios olhassem para Valongo com olhos de ver. Vão ver que vale a pena. 

Paulo Sousa

Paulo Sousa

22 outubro 2023