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Solidariedade Intergeracional – How dare you?

 


A geração mais bem preparada de sempre é também a mais endividada de sempre. Os bebés que nasceram em Portugal em 2022 herdaram automaticamente uma dívida de 27 mil euros. E pelas projecções do nosso Governo, daqui por 15 anos o valor terá ultrapassado os 30 mil euros para os bebés que irão nascer [1]. Em 1980, esse valor era de 3,5 mil euros (a preços actuais).

Será justo que isto continue?

A Dívida Pública que os nossos governantes têm vindo a alimentar de ano para ano, serve para podermos beneficiar, no presente, dos rendimentos que irão ser produzidos no futuro. Ou seja, aumentarmos a Dívida Pública estamos agora a utilizar o fruto do trabalho dos nossos filhos e dos nossos netos. Quando estes bebés começarem a trabalhar, vão ter de pagar estes nossos devaneios.

Será este o termo correcto? – “Devaneios”

Há uma regra de ouro nas Finanças que nos diz “Um bem deve ser financiado por capitais que tenham uma duração semelhante à sua vida útil.” Portanto, é lógico que os investimentos em infra-estruturas, como estradas, aeroportos, caminhos de ferro, hospitais, escolas, etc., sejam financiados com recurso a dívida de longo prazo. Se os nossos filhos e os nossos netos vão usá-los, é natural que também os paguem, fazendo-o através da amortização dos empréstimos e dos juros provenientes do seu financiamento.

Estamos agora a pensar que o aumento da Dívida Pública deve ter-se repercutido também num aumento nos Investimentos Públicos, certo? Errado. Na primeira década deste século, o valor dos investimentos diminuiu relativamente à década anterior (3%). E na segunda década (2011-2020) ficou quase em metade!

  


Contas feitas: desde 1995, a Dívida Pública aumentou duas vezes e meia, mas o Investimento diminuiu para metade. Então por que é que andámos a criar dívida para os nossos filhos e netos pagarem, se eles não vão usufruir de nada do que vão pagar?

A resposta já sabemos: Devaneios!

Vamos obrigar as próximas gerações a pagar aquilo que andamos agora a consumir. Os nossos carros, as nossas férias, as nossas roupas... Não há uma forma simpática dizer isto. É possível reverter esta situação? Ao nível do país funciona como em nossa casa: para não deixarmos dívidas aos nossos filhos e netos, temos de pagá-las o quanto antes. E para as pagarmos o mais rápido possível, só ganhando mais. No caso do nosso país, o PIB cresceu a uma taxa média de 0,8% ao ano no século XXI. Na Roménia e na Polónia (os antigos pobres da Europa), o ritmo de crescimento foi quase cinco vezes o nosso, por isso as sua Dívidas Públicas não são um problema. 

Esta questão da falta de solidariedade da nossa geração para com as mais novas agrava-se porque, para além das nossas dívidas financeiras, temos vindo a endividar-nos relativamente aos recursos que o nosso planeta nos oferece. Os nossos bebés estão a herdar um planeta cujos recursos têm vindo a ser consumidos por nós muito acima da fatia que nos cabe. Neste ano de 2023, o Dia da Sobrecarga registou-se a 7 de Maio – nesse dia, Portugal acabava de esgotar os recursos naturais disponíveis para todo o ano! Em 2019 (antes da pandemia), esse momento tinha-se registado a 29 de Julho; em quatro anos, acelerámos em 60% o consumo dos recursos disponíveis.

Sim, os nossos filhos e os nossos netos têm toda a razão em perguntar-nos:

“How dare you?”

 

 

GRÁFICO EM OUTRA PROPORÇÃO PARA O CASO DE ENCAIXAR MELHOR NA MANCHA TIPOGRÁFICA:

 

1[] Programa de Estabilidade 23-27.

Mário Queirós

Mário Queirós

Mário Queirós

Sérgio Gomes

22 outubro 2023