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Maternidade: a mais bela e necessária missão humana

Encontrando-se Portugal em pleno inverno demográfico, importa refletir sobre o impacto desta questão sociológica na esfera da nossa identidade nacional. Como sabemos, o grave declínio da população autóctone está a ser compensado pelo aumento significativo da população migrante que tem vindo a radicar-se no nosso país em busca de melhores condições de vida. Não tenho nada contra as migrações, porque elas são um fenómeno inerente ao próprio processo histórico da humanidade.

De resto, nós, como povo migrante que também somos, contribuímos igualmente para o aumento demográfico de muitos países espalhados pelos cinco continentes. É bonito e exaltante que pais estrangeiros queiram vir ter os seus filhos a Portugal, os quais poderão um dia vir a ser nossos concidadãos de pleno direito. Importa dizer que é na sua gente que uma nação tem a sua maior fortuna, o seu capital mais precioso, e não pode ser rico o país que tem a sua população envelhecida. Mas para que Portugal não perca a sua prodigiosa marca identitária, vamos precisar de investir com sabedoria e diligência na aculturação do povo migrante que nos vem escolhendo para trabalhar, viver e sonhar.

Quero com isto dizer que a nossa cultura não deve ser imposta à força a portadores doutras matrizes civilizacionais; no entanto, entendo que ela deve continuar a ser a cultura dominante, porque nas suas leis estão expressos os princípios indeclináveis do Estado de Direito, como a liberdade, a democracia, a justiça, a paz, a tolerância ideológica e religiosa, o bem comum, a ordem pública, etc.. Convém que os nossos imigrantes e turistas saibam que Portugal não é um país qualquer, e não será demais pedir-lhes que o respeitem, tal como Portugal os respeitará a eles. É que o nosso contributo para o progresso mundial foi imenso, e muita gente, até em Portugal, não sabe disso!

Em todo o caso, convém que continuemos a ter filhos de mães portuguesas, sem que recusemos os filhos das mães estrangeiras. Ser mãe não é só gerar um filho no seu ventre e dotá-lo de um património genético; ser mãe, para lá do lado afetivo e sentimental, é dar-lhe um lar acolhedor, uma cultura singular, uma pátria insubstituível e uma existência prodigiosamente rica num vastíssimo campo de sensações, emoções e saberes. Por isso, fico sempre muito triste quando ouço uma jovem mulher dizer que não quer ter filhos, por razões meramente egoísticas. Naturalmente que essa jovem só está a pensar em si e no seu interesse pessoal. Felizmente que não são muitas, porque o instinto maternal é indissociável do amor que inunda o coração de toda a mulher parturiente.

O egoísmo é um vício de alma que corrompe a pessoa que o sofre, mas que também mina a sociedade no seu todo. Erico Veríssimo, no seu magnífico romance Olhai os Lírios do Campo, escrito em 1938, coloca a personagem Eunice a dizer o seguinte, numa voz convencional: «Não quero saber de filhos. Esses mamíferos esfaimados nos deformam o corpo.» Naturalmente que o consagrado escritor brasileiro quis com esta passagem denunciar um preconceito que não tem qualquer base científica. Pela minha parte, sempre achei que, depois de um parto, as mulheres ficam mais belas e mais desejadas pelos seus maridos!

Não nego que a gravidez possa causar incómodo, e o parto muita ou pouca dor, consoante o processo obstétrico; no entanto, a alegria de ser mãe supera tudo; aliás, o amor supera até mesmo o sacrifício físico. Omnia vincit amor, disse o grande poeta Virgílio, nas suas Bucólicas. Li algures, já não sei onde nem quando, que certas mulheres africanas colocavam num colar do pescoço um símbolo por cada filho nascido, e disso se envaideciam, por ser sinal de importância social. Que bonito!

A propósito da regressão demográfica que tomou conta de Portugal, escrevi um poema intitulado Hino à Maternidade, que fiz sair no Oratório Profano, um dos meus livros de poesia, dado à estampa em 2008, e que mereceu a apresentação literária do saudoso doutor Agostinho Domingues, ocorrida no emblemático espaço da livraria Centésima Página. Pode ser lido, caso assim o deseje o leitor, no Caderno de Cultura da edição de hoje do Diário do Minho.

Fernando Pinheiro

Fernando Pinheiro

18 outubro 2023