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Bebé morre esquecida no carro

Leio no jornal Expresso de 15 de setembro de 2023 a dramática notícia: 

 


No início da semana, um pai esqueceu-se acidentalmente da sua bebé durante sete horas no carro estacionado na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, no Monte da Caparica. Deveria ter deixado a menina de um ano na creche do Campus universitário de manhã. Quando chegou ao carro depois de sair do trabalho, pelas 15 horas, alertou o INEM que ainda tentou, sem sucesso, reanimar a criança. (Mara Tribuna - Expresso de 15 e setembro de 2023). 

 


A abrir, deixo aqui uma prática habitual que deve ser levada em conta para obviar estas situações: coloque no banco traseiro do seu veículo, junto ao filhote que transporta, qualquer objeto que tenha de levar para o trabalho (computador, bolsa, casaco, mochila); deste modo não corre o risco de se esquecer do bebé. 

De supetão, pensamos: o que terá levado este pai a cometer tão escabroso como doloroso ato? E, numa primeira e fria análise, somente o esquecimento e, provavelmente, a inabitual e diária condução e entrega da filha na creche pode trazer alguma explicação ao sucedido. 

Excluindo, obviamente, problemas momentâneos ou ocasionais de amnésia ou distúrbios neurológicos, talvez uma cabeça demasiado ocupada e, quiçá, cheia ou obcecada por problemas, fossem laborais ou de outro género, pode estar na base da fatalidade; e, depois, um bebé que até podia ir a dormir e, assim, sem dar o mínimo sinal de presença e de vida também ajudou a este desfecho trágico. 

E este não é caso único, esporádico ou de ocasionalidade impensável, pois situações como esta e de outros matizes acontecem frequentemente pelo mundo fora; basta lermos as notícias ou vermos as imagens nos media, para obtermos as situações de imensas crianças cujos pais, não só as maltratam até à morte, como lhes tiram a vida impiedosamente. 

Sabemos que a vida moderna da maior parte das famílias com filhos pequenos é difícil e problemática, seja economicamente, seja socialmente; e, então, em casos de desvios mentais, escassez de meios de sobrevivência ou desavenças conjugais são quase sempre as crianças a sofrer inúmeras fatalidades como sejam raptos, abandonos, violências ou, até, mortes. 

Pois bem, a esta mórbida realidade social não é estranha a vida diária de imensas famílias que experienciam exigências e pressões laborais, pressas e conflitos, desmotivações e chantagens; e, porque não, os dramáticos problemas económicos que têm de enfrentar para cumprir com as suas obrigações fiscais, bancárias, escolares, da subida constante dos bens alimentares, da habitação, dos combustíveis, dos custos de vida em geral. 

E, agora, aqui entra a responsabilidade dos governos e dos agentes económicos nem sempre atentos e sensíveis ao tratamento destes problemas; e, para além do mais, a não existência de organismos públicos capazes de fazer a triagem, necessária e útil, destas situações e a busca e conquista de formas e meios de as colmatar ou debelar, está na génese de grande número das mazelas sociais que enfrentamos, à frente das quais estão a subida constante da pobreza e da miséria. 

Agora, uma coisa é certa: a nossa democracia ainda tem muito para andar, remendar e conquistar, e não tenhamos dúvidas e muito menos ilusões de que a falta de homens de Estado, de políticos competentes, rigorosos, capazes, sérios e não trapaceiros são a maior razão da perda constante da vitalidade, criatividade, justiça, participação, menores desigualdades e maior sucesso da nossa democracia; é que grande parte dos agentes políticos, seus mentores e promotores, preocupam-se e perdem demasiado tempo ainda debatendo e exorcizando os velhos fantasmas do passado. 

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

18 outubro 2023