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Um Verão sem melões nem andorinhas

Por gostar de melões e por ser ornitólogo). Se não gostasse daquela fruta; nem fosse, desde a minha já distante adolescência, um apaixonado “observador de aves” (amador, é certo, mas indefectível), o duplo assunto que hoje aqui trago, passar-me-ia por certo, ao largo. Porém, não é esse o caso. E nessa medida foi pois um verão estranho. Incidentalmente, confesso, foi também um dos verões mais negativos da minha vida (só comparável aquele em que, num certo 21 de Julho, o meu Pai faleceu prematuramente, do coração). Mas não é disso que venho aqui falar. É de melões e andorinhas.
Melões do Ribatejo, dos bons, são misteriosamente cada vez mais raros, no Norte). Refiro-me aos de casca branca, vulgo “de Almeirim”; vila que é cabeça das rasas, fartas e vastas planícies ribatejanas, que se avistam para sul, desde a elevação onde se situa Santarém (o romano “Praesidium Julium Scalabis”). Por azar para os apreciadores mais setentrionais do melão, a região onde eles se produzem está também fortemente povoada por pessoal que em geral tem uma marcada devoção taurina; e que (até por alguma antiga e forte “costela” itálica, de conquistadores e de povoadores) nada aprecia que estranhos (setentrionais ou não) os tratem por “selvagens, atrasados, ignorantes ou cruéis”. Esse é o vasto campo que inclui Coruche, Vila Franca, Benavente, Cartaxo, Alpiarça, Chamusca, Golegã, Salvaterra, Alverca, Abrantes, Entroncamento, etc.. Tomemos pois por adquirido que a terra dos melões é a mesma terra dos grandes aficionados tauromáquicos. Em média, pessoas com mais velosidade corporal que os de outras partes do país, conta-se até que (eu isso nunca vi…) costumam ficar com o pêlo eriçado se são, sem razão, provocados. E que nos tempos antigos, para acalmar, pegavam logo num pau e começavam a dançar, aos pares, o famoso “fandango” (com os seus característicos e tão ameaçadores pontapés para a frente e para o lado).
Devia-se contratar um bom detective). Para se “tirar a limpo” se há alguma ligação (por certo, “remota”) entre, p. ex., o facto de as praças de touros de Viana do Lima e da Povoa de Varzim terem sido demolidas; e, mais ou menos pela mesma altura, a probabilidade de no Norte se encontrar um melão de casca branca bom, ter deminuído acentuadamente. É como os incêndios florestais, há muitos que acreditam que é do calor; que não é o “factor humano”.
Mas pelos vistos, é apenas uma teoria “muito minha"…). Aliás, já aqui, no DM, expendida em mais que um artigo; e desde há anos atrás. A de que existe mesmo uma relação entre a “quase extinção” do melão de Almeirim de qualidade, nas frutarias e restaurantes a norte do Vouga; e os ímpetos anti-taurinos dos sucessivos autarcas vianenses (Defensor Moura e José Mª Costa) e poveiros. Curiosamente, no caso poveiro, o divisivo ataque à Cultura portuguesa ainda é mais simbólico; pois há aquele conhecido texto de Almeida Garrett (em “Viagens na minha terra”) que compara a bravura dos campinos (e toureiros) com a dos pescadores do, às vezes tão difícil, mar da Póvoa. E no caso de Viana, à sanha anti-taurina (numa cidade que até tinha um clube taurino…) juntava-se uma ainda mais destrutiva e demolidora “sanha anti-prédio Coutinho”; que persistiu fanática e impediosamente pelos tribunais. E se “encheu de vitoriosa glória “ ao fim de mais de 20 anos. E agora, aí temos a baixa de Viana que, quem vê ao longe mais parece um barco sem proa, uma vila grande mas sem prédios altos. E possivelmente, todas estas teimosias autistas tiveram como castigo subtil, além do citado desaparecimento dos melões (veja-se a festa de Porto de Ave, Guimarães), também a injusta desclassificação de SCUT, da tão preciosa A28…
Parece, por outro lado, haver diminuição do efectivo nacional de andorinhas). Foi a impressão com que fiquei, passado que foi o verão. Em certas regiões, eram antes tão numerosas; mas este ano apareceram menos. Recordemos que, à excepção da “das rochas” (“ptyonoprogne rupestris”, visível p. ex., na ponte de Amarante, mas que este ano até nem apareceu…), todas as outras espécies são migratórias, fazem anualmente milhares de kms. desde a África central ou austral até cá. Vi menos; quer a “das chaminés” (“hirundo rustica”); quer a “dos beirais” (“delichon urbica”). E nem falo das mais raras, “riparia riparia” e “cecropis daurica”. Mesmo os velozes bandos de andorinhões (ou pedreiros), do género “apus”, parecem ter aparecido menos. Aproveito, contudo, para lembrar que, a observação de aves com um bom binóculo, é uma infalível fórmula para nos embrenharmos na Natureza; e ultrapassarmos o “stress” do dia a dia.
Será da vespa asiática ou do excesso de pesticidas?). Estes parecem ser os 2 principais factores para a diminuição de certas espécies de aves. Já para não falar dos numerosos incêndios florestais; ou das mortíferas pás das ventoinhas eólicas; ou da utilização da maquinaria agrícola nos intensivos novos olivais alentejanos; a qual arrasa milhares de ninhos. Enfim, é a nova “Economia Verde”, no seu “melhor”.

Eduardo Tomás Alves

Eduardo Tomás Alves

17 outubro 2023