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Pobreza, uma chaga entre muitas outras

No passado sábado, em Portalegre, à margem da 16.ª Festa da Solidariedade, o presidente da Confederação das Instituições de Solidariedade (CNIS), Padre Lino Maia, afirmou que cerca de 20% da população portuguesa vive em situação de pobreza e, se não fossem as transferências sociais, esse número seria o dobro.

Na mesma ocasião, aquele responsável declarou que há muita gente que mesmo trabalhando não consegue sair da pobreza já que os rendimentos auferidos são insuficientes para fazer face às necessidades e aos desafios do dia-a-dia. O salário de cerca de metade dos portugueses não chega para as despesas básicas e muitos destes têm um vínculo laboral precário o que confere à situação ainda maior gravidade.

A pobreza definida no sentido mais restrito como falta de meios para suprir as necessidades de alimentação, roupa, habitação e cuidados de saúde é uma realidade que nos envergonha e nos deve levar a refletir.

 Portugal, membro efetivo da União Europeia desde 1 de janeiro de 1986, que ao longo dos anos dela tem beneficiado de múltiplas ajudas para se modernizar e desenvolver, ainda não foi capaz de erradicar esta verdadeira calamidade. Uma chaga social que, se não fosse a ação meritória de muitas instituições particulares de solidariedade, seria certamente bem maior.

Portugal é um país com cerca de dez milhões de habitantes e, no entanto, não tem conseguido tirar da miséria um quinto da sua população residente. Porquê?

Será que o modelo de desenvolvimento seguido nos últimos anos tem sido o mais correto? Não serão também responsáveis por boa parte da pobreza as políticas de baixos salários e de carga fiscal desproporcionada? E que dizer dos índices de bem-estar da maioria da população portuguesa? 

Todos sabemos que a pandemia de Covid-19 veio agravar uma situação que já não era brilhante. Porém, não haverá outras razões para um certo marasmo e até um agravamento da pobreza em Portugal?

Esta chaga social tem raízes geracionais e múltiplas causas. Contudo, acredito que na sua génese, entre outras, a falta de planeamento, de bom aproveitamento dos recursos disponíveis, a burocracia excessiva e a pouca audácia no poder de decisão são razões igualmente importantes para explicar este flagelo que atinge a sociedade portuguesa.

Não é verdade que há décadas se discute a localização do novo aeroporto de Lisboa tendo sido gastos rios de dinheiro em comissões e estudos para esse efeito?

Não é verdade que a modernização da ferrovia portuguesa tem sofrido sucessivos atrasos com graves prejuízos para a mobilidade de milhares de cidadãos?

Não é verdade que os problemas em setores vitais como a Educação e a Saúde se arrastam há demasiado tempo, com danos irreparáveis para centenas de milhares de portugueses? 

E que dizer da morosidade dos licenciamentos para os mais diversos fins e da lentidão da Justiça?

No que diz respeito a recursos, será que temos tirado o melhor partido das nossas condições naturais para promover um turismo sustentável e de qualidade? E em relação ao nosso extenso mar, será que temos sabido aproveitar convenientemente todo o seu potencial?

Estas são algumas questões que nos devem fazer refletir não só para melhor avaliarmos o desempenho de quem nos tem governado, mas também para descobrirmos outros caminhos e novas soluções que nos façam sonhar com um futuro mais próspero e mais solidário. 

A pobreza, a par de outros males de que enferma a nossa sociedade, é um infortúnio que afeta uma significativa parte dos nossos concidadãos. É uma ferida aberta a que ninguém pode ficar indiferente.

Urge encarar com veemência esta chaga social e lançar programas abrangentes capazes de retirar da miséria quantos vivem sem o mínimo de conforto e dignidade.

Enquanto não for conseguido tão importante desiderato, que ninguém deixe de olhar o seu semelhante com dificuldades para sobreviver no dia-a-dia com bondade e, principalmente, com respeito e humanidade.

J. M. Gonçalves de Oliveira

J. M. Gonçalves de Oliveira

17 outubro 2023