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Estradas sem marcação

Mantém-se há semanas, no sentido de Dume para Braga, logo que se sai da Rotunda da Confeiteira em direcção à Volvo, sinalização de que a estrada está sem marcação. Na verdade, aquela artéria foi objecto de intervenção ao nível do asfalto, mas a marcação da via ficou por fazer. Já passaram algumas semanas! Está lá o sinal, é certo, a avisar os automobilistas para terem cuidado, mas o que era realmente importante - a marcação -, essa tem sido adiada. Até quando? Não se sabe. A obra não fica acabada enquanto a marcação não estiver feita. Em boa verdade, enquanto não estivesse concluída a obra, a circulação de viaturas deveria ficar condicionada. E o trânsito? E as horas de ponta? Algum dia vai ter de fazer-se o que falta e cada vez será mais difícil, designadamente, por causa da meteorologia. Já se podia e devia ter feito. Se os senhores mandantes só vão dar ordem quando for para terminar a obra da Avenida da Liberdade, para se concluir tudo de uma assentada, os automobilistas vão ter que esperar ainda bastante pela segurança a que têm direito. E terem cuidado redobrado e alguma sorte para não sofrerem nenhum acidente, sobretudo, nas noites chuvosas que possam vir por aí. Não contem com a falta de marcação da via para se desculparem de um eventual sinistro. Quem for envolvido em algum, vai ter de se desenrascar sozinho. Os mandantes são especialistas em sacudir a água do capote. Vão dizer-lhe que a pintura está por baixo do asfalto colocado!... Não é que o caso apresentado seja novo, pelo contrário, mas isso não desculpa os responsáveis locais, por mais que possam ter interiorizado o discurso produzido por grande parte do actual elenco governativo de que o que não está feito ou o que não existe é culpa dos governantes anteriores. 

Conduzir por estrada sem marcação é apenas um pequeníssimo aspecto da realidade da governação, seja esta considerada a nível local, seja a nível do país. Faz-se o que dá na real gana dos dirigentes e deixa-se de fazer o que tanta falta faz, vezes sem conta, aos cidadãos. Há festas e festinhas, há orçamento de Estado para isto e para aquilo e não há para o que diz muitíssimo ao cidadão. A cidade, como o país, são como estradas sem marcação. E as maiorias absolutas, locais ou nacionais, dão azo a coisas do género. Até as campanhas eleitorais não chegam a ser esclarecedoras. Quanto menos tinta (compromissos) na estrada melhor, para que os responsáveis não tenham de dar satisfações do que, estando prometido, deixem de fazer. Sem marcação, não há como comprovar que se passou de uma faixa para outra, de um objectivo para o seu contrário, da promessa de que se ouviriam todos os partidos para a realidade de ser privilegiada a decisão unilateral em tudo ou quase tudo. Mas, às vezes, a marcação até existe, só que o condutor, sendo culpado, não admite. Como no caso da promessa de que seria desatado cedo o nó de Infias e em que a Edilidade culpa terceiros por ainda tal não ter acontecido ou como as promessas de quem prometeu acabar com as situações de carência habitacional até 2024 e não admite que falhou em quase tudo.

Não fazer agora e deixar para depois nunca é solução. O custo de oportunidade pode ser enorme. Se houver, por exemplo, um acidente por falta de sinalização de uma estrada, ou alguém precisar muito de uma urgência hospitalar para cuidados médicos inadiáveis por se tratar de uma situação grave e a ambulância tiver que fazer um percurso demasiado longo para evitar um desfecho negativo, há-de haver alguém responsável pelo que possa acontecer. Em teoria, sim, na prática talvez se não encontre qualquer responsável e ninguém seja homem para dizer que ele próprio é o culpado. Ninguém quer assumir que deixar para depois o delineamento da via rodoviária ou a dotação de recursos e de condições de trabalho dos serviços de emergência do Sistema Nacional de Saúde possa ser um erro pelo qual os dirigentes públicos deveriam ser responsáveis. Há muitas estradas sem marcação que aqui não são referidas a que também é preciso por fim.

Luís Martins

Luís Martins

17 outubro 2023