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“Nada te perturbe... só Deus basta!”

 

 



 


 Celebrou-se, ontem, a Memória Litúrgica de Santa Teresa de Ávila ou de Jesus, como também é conhecida. Por ter ocorrido ao domingo, quase passou despercebida, mas não assim a importância desta mulher no seu tempo e na posterior História da Igreja. 

Nasceu a 28 de março de 1515, em Ávila, e recebeu o nome de Teresa de Cepeda e Ahumada. Desde muito nova, juntamente com o seu irmão Rodrigo, lia a vida dos santos e desejava ser mártir.

Após o falecimento do irmão mais velho e da mãe, foi enviada – tinha 17 anos – para o mosteiro agostiniano de Nossa Senhora da Graça, na sua cidade. Atingida por uma crise de saúde, regressou à casa paterna para se tratar e, entretanto, leu as Cartas de S. Jerónimo. Entrou depois no convento carmelita da Encarnação, também em Ávila, onde, a 3 de novembro de 1537 e contra a vontade do pai, fez a profissão religiosa. 

Atormentada pela doença física e pelo vazio espiritual, em dado momento fixou-se numa imagem de Jesus atado à coluna. Ficou perturbada e lançou-se aos seus pés, chorando e pedindo-lhe que a fortalecesse de uma vez para sempre. Começa aí a sua vida mística. 

Após muita luta, conseguiu a autorização de Roma para fundar as Carmelitas Descalças (assim chamadas por usarem roupas rasgadas e sandálias, ao invés de sapatos e hábitos), a partir das Carmelitas Calçadas, a ordem a que pertencia. Fundou conventos femininos em Ávila, Medina del Campo, Valladolid, Toledo, Salamanca e Alba de Tormes. 

Em 1567, conheceu Juan de Yepes y Álvarez (S. João da Cruz)1, jovem estudante de Salamanca, recém ordenado sacerdote, que passou a ser seu colaborador na reforma do Carmelo e na fundação das Carmelitas Descalças. Tendo superado acontecimentos dolorosos, divisões dentro da ordem e até acusações de heresia, é com a sua ajuda que Teresa se entrega também à reforma dos conventos masculinos (o primeiro foi o de Duruelo, em finais de 1568). Decidiu, contudo, confiar a missão de fundar novos conventos masculinos e de escrever as regras para eles a João da Cruz.

O capítulo mais misterioso e interessante da sua vida é o das visões e êxtases: Teresa levita, desmaia e fica como morta. É assim que Bernini a representa, por volta de 1650, numa estátua que se encontra na Igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma. Sinais de grande crescimento espiritual, as visões e êxtases deixaram marcas nos seus textos místicos, muito claros, poderosos e poéticos.

Durante muitos anos, foi atormentada por uma angústia dolorosa: a sede de ver a Deus. Com 67 anos de idade e gasta por tantos trabalhos, canseiras e viagens, encontrava-se em Alba de Tormes quando, a 20 de setembro, ficou de cama. Desejava voltar a Ávila e morrer no seu convento, mas a doença não lho permitiu. No dia 3 de outubro, recebeu o Sagrado Viático, despediu-se das suas religiosas e rezou o Miserere. Na noite de 4 de outubro de 1582, faleceu. Foi sepultada no dia seguinte, 5 de outubro, em Alba de Tormes2. Realizou-se assim o desejo expresso no seu poema Aspirações à vida eterna, de que transcrevemos uma parte: 

“Olha que o amor é forte!

Vida, não me sejas molesta,

Olha que só te resta

Para ganhar-te, perder-te.

Veja já a doce morte,

O morrer venha ligeiro.

Que morro porque não morro”.

A sua obra mais famosa é O Castelo Interior, um itinerário da alma na busca de Deus. Além dessa, merecem destaque O Caminho da Perfeição, Pensamentos sobre o Amor de Deus e A Vida de Teresa de Jesus (biografia). Uma das suas frases mais emblemáticas – e a mais conhecida de todas – é “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, a paciência tudo alcança. Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta”. Músicos a usaram para compor algumas das mais belas melodias litúrgicas3.

Teresa de Ávila foi beatificada a 24 de abril de 1614, pelo Papa Paulo V; canonizada a 12 de março de 1622, pelo Papa Gregório XV; e proclamada Doutora da Igreja a 27 de setembro de 1970, pelo Papa Paulo VI. Juntamente com Santa Catarina de Sena, foi a primeira mulher a receber este título.

A sua profunda espiritualidade, tal como a coragem e determinação em levar por diante uma reforma que se impunha, apesar das dificuldades e oposições, fazem dela um modelo de santidade e uma referência de coragem e tenacidade a ter em conta, na vida da Igreja.

 


 


1 Com alguma piada, Teresa chamava-lhe “frade e meio”.
2 Foi precisamente nesse dia que, por ordem do Papa Gregório XIII, aconteceu a mudança do calendário juliano para o gregoriano. O ajuste do calendário fez com que o dia 5 de outubro passasse a ser o 15º dia desse mês.
3 Na literatura, protagoniza o romance El castillo de diamante de Juan Manuel de Prada.

P. João Alberto Correia

P. João Alberto Correia

16 outubro 2023