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Dúvida posicional

 

 

Ao ouvir um politólogo dizer, num seu comentário televisivo, que na atual conjuntura política já não há “esquerda” nem “direita”, logo fiquei a pensar o quão equivocado está. Pois eu acho que elas nunca foram tão vincadas, como agora, no discurso partidário. Assim como penso ser um clamoroso erro nada ser feito, em temos de reforma dos partidos políticos. Mormente, definir as suas posições e abri-los à sociedade, a fim de contribuírem para o enriquecimento da democracia participativa.

 Julgo eu, que talvez fosse benéfico para o regime democrático que os responsáveis dos partidos nas suas votações na Assembleia da República (AR), evitassem abster-se. Assim, como deixassem de lado a figura de estilo do “centro”. Dado que, a meu ver, fazê-lo em demasia só demonstra não serem carne nem peixe. Ou seja, estão ali não para bem do país, mas de acordo com as suas conveniências ideológico-partidárias.

 É que quando oiço o líder do Partido Social Democrata (PSD), Luís Montenegro (LM), puxar o partido para o “centro”, logo penso em como está a deixar alguns dos seus eleitores periclitantes. Isto é, sem saberem para que lado ele os pretende levar. Se de facto quer ser alternativa ao Governo do Partido Socialista (PS) e a António Costa, ou se pretende juntar-se à mesma ala – ainda que desvirtue os seus ancestrais pergaminhos.

 Ademais, LM, ao usar o “chega p’ra lá à direita”, só demonstra alguma fragilidade nas suas convicções. Ou seja, acaba por emanar dele uma instabilidade ideológica a todo o pano. Em nada contribuindo para cativar não só aqueles sociais-democratas que se fartam deste “jogo” de indefinições, como para aproximar das mesas de voto os abstencionistas. Não o fazendo, é não querer ter um rumo certo.

 Ora, nos resultados destas últimas eleições na Região Autónoma da Madeira (RAM), houve um dado que não foi destacado pela nossa Comunicação Social (CS): o da “abstenção”, na ordem dos 46,6%. O que quer dizer que dos 253.865 eleitores inscritos, apena votaram 135.413. Se isto não dá que pensar no estado a que chegou a nossa democracia participativa, então não sei o que dará. No entanto, na CS, ninguém ligou ao facto.

 Diga-se, em abono da verdade, que isto do líder do maior partido da oposição – sentado no Hemiciclo do lado oposto ao do PS, PCP, BE, PAN e livre – andar sempre a tentar colocar o partido ao meio, só demonstra que não se sente bem onde está. Aliás, como se viu com Rui Rio quando veio dizer que o PSD é do “centro-esquerda”. Posição logo reafirmada pelo magnata da CS, Pinto Balsemão. 

 Já o ex-Presidente Regional da Madeira, João Jardim, preferiu apelidar LM de “caloiro”, embora ninguém o tivesse questionado sobre tal. Será que foi pelos mesmos motivos que aqui me propus tratar? Ou por ele ter ido à Madeira corroborar na decisão de Miguel Albuquerque (MA) se juntar ao partido dos animais para governar? 

 Quem não ficou nada agradado com a aliança PSD/PAN, foi o líder do “Centro” Democrático Social (CDS), Nuno Melo, ao sentir-se traído pelo do “Somos Madeira”. É que, MA, ao preferir ignorar a “direita” e optar por quem não só apoiou a formação da maioria na AR, em 2015, como tem um discurso pr’ó socialista. O que me deixa a vaticinar que se amanhã precisar, até se alia a qualquer partido da esquerda radical.

Com efeito, MA ao ter dito que se demitia caso não obtivesse maioria absoluta nas urnas, ao não o ter feito o mais certo é ter perdido alguma credibilidade perante os madeirenses. Por outro lado, ao servir-se de um parceiro fã da “geringonça”, usada por A. Costa, acaba por sê-lo também.

É, pois, ciente do contributo dado pelas franjas do PSD à maioria socialista que LM quer, agora, reaver alguns desses eleitores deslocados. Porém, continuará a perder parte deles para o Chega e para a IL, inquietados com esta dúvida posicional. É que LM se não se clarifica por temer a “esquerda”, encoraje-se, siga a via do Edil da Capital, Carlos Moedas, e pode ser que chegue ao poder em 2026.

Narciso Mendes

Narciso Mendes

16 outubro 2023