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Algures entre nenhures

 

 

 


Não se sabe ao certo por onde caminha a atual democracia. Espreitam pelas frechas da sua bondade olhos cobiçosos e saudosos de outros tempos. Os absolutismos são a praia dos que se não importam dos que não têm conforto. Incerta aqui e acolá, perdida entre greves, não encontrando soluções para os mais instantes problemas laborais, médicos, professores, habitação. Inflação, enfermeiros, numa extensa panóplia de reivindicações, tão extensas como justas, está em algures de nenhures: abordagens tão erróneas não têm feito calar os descontentamentos; quanto mais tempo passa mais dão razão à reivindicação: é mais barca que perdeu o leme e oscila ao sabor das ondas onde habitam abismos colossais. Pessoalmente não colho desta situação senão amargura porque sou dos que acreditavam que a democracia é melhor que qualquer “boa ditadura” venham elas de governos autoritários que muitas vezes não sabem distinguir autoridade com autoritarismo. Engano-me? Aqui me retratarei. Quem me dera aqui, um dia, poder dizer “felizmente estava errado”. As eleições livres e independentes são a boa imagem do direito universal da vontade de escolher ou vai-se lenta mas progressivamente transformando numa espécie de arranjinho onde os apaniguados escolhem para poder comer mais bolinhos de bacalhau e um mais abundante copo de vinho? É um saber votar ou um votar sem saber? Diz-se que o poder é exatamente a expressão da vontade popular. Engana-me que eu não gosto. Quantas vezes são governos minoritários que negoceiam as cadeiras do poder para se manterem à tona da água! Veja-se o que se está a passar em Espanha para verificarmos que “queijo limiano” já não é uma especialidade de Ponte de Lima. O poder corrompe? Para mim não se corrompe apenas, também se rompe e se desfaz em nuvens escuras que escurecem o céu democrático e provoca mal-estar em quem ama a liberdade e nela quer morar. Os políticos têm de reencontrar o seu episteme, isto é, ir buscá-lo à matriz social da sua existência e não refastelar-se na banca da democracia circunstancial; a própria democracia é menor quando o social é pequeno. Situem-na em algum lugar bem visível onde se veja o homem real para que não tenhamos de o procurar em nenhures. É preciso que quem vote democracia não seja como a noiva que vai casar arrependida. Não deixem que um noivado se transforme num funeral.

 

 

Paulo Fafe

Paulo Fafe

16 outubro 2023