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SÃO DUAS AS GUERRAS EM CURSO

                          

 



 


Há poucos dias, quando caminhava numa das ruas da cidade onde vivo, ouvi o clamor indignado duma mulher quarentona: “Não há forma de os homens entenderem que as guerras não resolvem os seus problemas”. Falava com uma amiga da mesma fase etária que, encolhendo os ombros, observou: “Mas que esperas de quem, numa noite, de surpresa, é atacado por uma série de inimigos, que fazem uma mortandade entre gente inocente...” Referia-se ao golpe dado pelos partidários do Hamas naquela festa que reunia uma série de israelitas.

 


 A outra não respondeu. Não sei se lhe parecia que a sua amiga tinha razão, se considerava que a sua observação necessitava de uma explicação mais aprofundada, ou, enfim, se a natureza humana torna in鷗eis as apreciações do tipo que se acabara de ouvir... Um longo silêncio se instalou entre as duas, que se olhavam mutuamente, sem saberem como prosseguir as observações que tinham feito.

 


 Por fim, uma disse: “Isto é tudo uma loucura. Vou para casa, porque tenho de fazer o almoço...” E retiraram-se sem mais palavras, cada uma na direcção do seu lar. A que ia preparar a refeição, ainda se voltou para trás para acrescentar alguma coisa ao que tinha dito, mas a sua amiga já se perdera entre as pessoas que palmilhavam aquela rua.

 


 Creio que as duas tinham razão no que observavam. Porque quem ataca como fizeram os adeptos do Hamas, certamente que não espera que o povo a que pertenciam as suas vítimas tivesse uma reação tão dura. Porque houve um procedimento tão violento e sanguinário? Tais atitudes só são compreensíveis - não falamos moralmente, mas apenas pelo que a razão nos parece elucidar - que entre os adeptos do Hamas alguns agem dum modo pouco compreensivo e acedendo a um ódio remoído, que os leva ao desespero e à contundência de atitudes, sem pensar no que depois vai acontecer. Parece um acto de rancor profundo e desesperado, que não vislumbra o futuro, mas uma atitude pouco meditada, onde se quer dar tudo por tudo em matéria de violência sanguinária, independentemente do que possa acontecer aos seus autores. 

 


 Lamenta-se este género de iniciativas, porque são o germe de respostas não menos violentas e onde os direitos humanos dificilmente se respeitam. Claro que estes também não são o norte de quem causou voluntariamente vítimas inesperadas, que se reuniam pacatamente numa espécie de arraial noturno. A paz entre os homens é uma ambição nobre da nossa natureza. Efetivamente, se viemos ao mundo não foi para nos desfazermos uns aos outros, mas para conviver pacatamente, decerto com respeito pelos nossos semelhantes. Uma acção de violência, que deixa sem vida muita gente indefesa, num ataque de surpresa e premeditado a uma reunião pacífica, não abona a favor dos seus autores. É possível que tal iniciativa corresponda, por parte do atacante, a um remoer continuado de ódios e intenções de vingança, suscitados por factos passados de humilhação, de injustiça e de força usada indiscriminadamente. 

 


 É provável que alguns dos membros do Hamas, quando pensam nos israelitas, imediatamente vejam neles um inimigo horrendo do seu povo, que o desprezou e achincalhou no passado sem piedade, e que apenas merece de si uma atitude de vingança plena, que chegue até às últimas consequências. O desespero, porém, se é capaz de levar a uma satisfação imediata de algumas intenções, pode, quase sempre, não saber prever as consequências da sua iniciativa. Um cálculo do imediato talvez satisfaça o coração e a vontade do seu autor, mas se não tem em conta outro tipo de circunstâncias consequentes, revela, além de pouca racionalidade, uma inteligência ensopada num ódio bruto e intempestivo. E só dá lugar a quem é atacado de responder “dente por dente, olho por olho”, e, neste caso concreto, com uma supremacia bélica incontestável.

 

 O mundo, que já diariamente recebe notícias da guerra que Putin provocou na Ucrânia, a fim de reafirmar a sua inigualável capacidade de impor unilateralmente a lei como ditador incontestável, enfrenta agora, não sabendo bem por quanto tempo, um outro conflito. Em ambos os casos o número de mortos cresce quotidianamente, manifestando que este tipo de situações priva muitos e muitos milhares de seres humanos de viver como é próprio dos seus direitos de convivência pacífica e harmoniosa. Uma guerra sempre gera injustiças e desprezo pela dignidade humana. Quando ela vigora, ninguém está livre de ver a sua vida desrespeitada, ao ponto de poder deixar este mundo sem ser por uma razão de que ele tenha qualquer culpa. Mais: sendo um cidadão pacífico e trabalhador, que concorre para o bem da sociedade a que pertence com o seu esforço laboral, familiar ou social. Basta uma bala perdida capaz de o suprimir sem condolências, quando não um bombardeamento que destrói o seu lar, que o mata a si e aos membros da sua família.

 


 Duas guerras em curso. Esperemos que tenham um fim breve. A dignidade do ser humano merece muito mais. Oxalá que quem as causa tenha consciência dos danos que provoca e da desumanidade que sempre as acompanham.

 

P. Rui Rosas da Silva

P. Rui Rosas da Silva

15 outubro 2023