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O péssimo efeito nas mãos beta

 

Pedro Lapa, crítico de arte e autor do catálogo da coleção Berardo entre 2011 e 2017 chamou-lhe “o máximo efeito”, (in Público) numa avaliação à mais recente ação dos ativistas do Coletivo Climáximo que decidiram cobrir com tinta vermelha uma das obras de Picasso expostas no CCB. Eu chamo-lhe, para ser educado, um “péssimo efeito” e um desafio à lógica do combate político, cujos efeitos se tornam perversos quando se confundem conceitos. A Liberdade e a Democracia não podem ser usadas, de forma distorcida, como armas de arremesso no argumentário, pelo contrário, devem ser preservadas nos limites da sua evocação, que, quando mal-usada, presta um mau serviço à causa que os jovens e todos nós devemos priorizar nas nossas vidas e Não, não é por se agredir alguém com tinta que este gesto se transforma num “símbolo de que a Democracia está viva”. Matilde Ventura, uma jovem de 19 anos, porta-voz da ação que atingiu o ministro do Ambiente, acercou-se de um argumentário, tão perigoso, que corre o risco de ser vítima de um radicalismo que não é sadio, confunde alhos com bugalhos e nada tem a ver com exercício de cidadania política nem com a defesa de causas. Apenas a ilusão do mediatismo a pode satisfazer, sem que daí resulte nenhuma consequência concreta para a causa que defende. Se o seu exemplo fosse seguido numa lógica do vale tudo e em todo o lado, estou a imaginar-me a andar com um balde de tinta no carro para a despejar sobre o outro só porque o meu argumentário é mais fraco ou não tem os efeitos que eu quero. Felizmente, menina Matilde, mora ainda alguma razoabilidade e consenso no país de que a defesa do Ambiente e o combate às alterações radicais dependem de cada um e, é claro, de um coletivo – país – que tem sofrido os efeitos de políticas erradas que lhe conferiram a si e a todos os outros jovens o direito a usufruírem de uma certa qualidade de vida que consome resmas de recursos. Aconselho-a, por exemplo, a deixar de usar telemóvel, cuja construção por unidade exige 92 litros de água. Peço-lhe que abandone a compra de roupas, cujo processo de fabrico utiliza químicos que poluem e quando for ao supermercado olhe e não compre nada ou quase nada porque tudo o que lá encontra arrasta atrás de si uma pegada que esgota os recursos naturais e se desligue de usar fontes na energia que consome em casa que não sejam renováveis nem frequente transportes públicos que ainda usam o gasóleo. Quando pensar na sua pegada humana e na dos seus amigos e amigas que consigo betizam a ideia de que estão a desencadear ações de prevenção democrática, queira perceber que é exatamente o contrário e que a sua influência junto de outros jovens pode desencadear reações “cool”, ser muito fixe e até motivar os Órgãos de Comunicação Social a serem “arrastados” para lhe dedicarem espaço mediático. Mas tudo não passa de uma ilusão perigosa por se alimentar negativamente desta ideia peregrina e radical que mancha o equilíbrio desejado entre a temperança do desejo legítimo e a certeza de que cada gesto individual e/ou coletivo efetivo, servem para corrigir os desmandos de sucessivas gerações que antecederam a sua e da qual bebe os ensinamentos do consumo desenfreado, pouco consciente e por vezes contraditório com os princípios da Sustentabilidade. Peço-lhe que repense bem se para si a Liberdade tem essa capacidade de ferir, agredir, mutilar, estragar, impedir que defende e se algum dia parou para pensar na Liberdade dos outros. Ao contrário de afirmar e exaltar as “qualidades” distorcidas da Democracia, seria bom que (re)lesse os seus fundamentos, o que ela representa hoje para a sociedade onde vive. Verá, se quiser, que a Democracia sempre sobreviveu aos defeitos, conhecemos os seus pontos fracos, as debilidades e os abusos, as ameaças como a autocracia que mina os fundamentos da Liberdade com que a Climáximo age. Se por ventura se der ao trabalho de argumentar de forma diferente e quiser fazer algo mais do que coartar a Liberdade dos outros ou atacar quem a defendeu para que pudesse hoje viver como vive, saiba que me juntarei a qualquer causa como a pretendida, mas nunca me verá do seu lado para atacar e minar os Valores e princípios que homens e mulheres do meu país defenderam no passado e defendem hoje, conscientes que estão de que a Liberdade Beta de que goza é um direito que lhe exige, simultaneamente, o dever de defesa intransigente da Democracia que não precisa do argumentário da violência para estar Viva.

 

 

Paulo Sousa

Paulo Sousa

15 outubro 2023