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Num mundo oval

A recente participação da seleção de Rugby no Campeonato do Mundo, que ainda se desenrola em França, foi um êxito desportivo para Portugal (e fomos eliminados na fase de grupos…). O impacto desta prestação não se avalia apenas pelos resultados desportivos, mas por todo um enquadramento que arrepia, que emociona, que faz enaltecer os valores mais nobres do Desporto. Apesar de não ser uma modalidade muito popular no nosso país, arriscaria que 99,99% da população portuguesa não conhece as regras básicas e tática elementar, é, com certeza, uma modalidade que se demarca pelo cavalheirismo, nobreza, brutalidade consentida e bem medida (bem diferente de violenta), carga física extenuante das armaduras de músculo em movimento e colisão, desportivismo, regras rigorosas que fazem apelo ao fair play e sã convivência entre os praticantes. A começar pela ação do árbitro, nomeadamente na comunicação das decisões, à aplicação de todas as regras e ao comportamento dos jogadores, é em tudo diferente de outras modalidades coletivas, bem mais populares…

A seleção nacional passou várias mensagens ao mundo. Aliás, o mundo oval elogiou permanentemente a prestação desportiva da seleção, a sua evidente evolução tática e técnica, mas igualmente a entrega da nossa delegação. Uma equipa semi-profissional com uma vontade de superação sem igual, disposta a resistir à diferença do tamanho e do peso. Num mundo tão profissionalizado, Portugal não se queixou da sua condição e foi à luta! Não foi o sol ou o relvado, o árbitro ou qualquer outro fator externo, que nos eliminou. Jogámos, lutámos, placámos algumas das potências mundiais que estavam no nosso grupo. Em campo só se notava a diferença pelo peso e da carga nas formações ou nas placagens. Na atitude, no empenho, na organização fomo-nos equiparando. Sem hesitações ou desculpas…

A seleção sofreu muito pelo contacto contra estas paredes de músculo e tradição cultural no rugby. Portugal aguentou-se com brio, nobreza e bravura! Nos últimos minutos, venceu o derradeiro encontro contra uma equipa com uma enorme tradição na modalidade, as ilhas Fiji. O pontapé da vitória, realizado pelo Samuel Marques, foi quase igual ao que nos deu o apuramento para o Mundial e não nos permitiu quebrar o empate contra a Georgia. O nosso fado tem sido sempre até à última e com um pontapé (na crise…) lá seguimos em frente! E fez-se história! As lágrimas (das mazelas e da vitória) abriram uma página na história e a constatação de que “os grandes também choram”!

Porém, o treinador das Fiji também deu uma lição de desportivismo. No final do jogo foi ao balneário de Portugal e ofereceu um kit de lembranças da sua equipa, reconhecendo o mérito da vitória lusa. Fabuloso! Só no mundo oval!

Os “Lobos” fizeram uma excelente preparação para este evento, mas agora precisam continuar esta evolução. Para isso acontecer, os jogadores deverão assumir uma carreira profissional e, acima de tudo, jogar muitas mais vezes neste nível por época, contra as equipas do 1º plano da modalidade.

Carlos Dias

Carlos Dias

13 outubro 2023