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SERENAMENTE Às pessoas com dinheiro

 

 


1. Relativamente ao dinheiro há, penso, três questões fundamentais:

a) Que seja bem adquirido, pois há dinheiro sujo, resultante de aldrabices, de vigarices, de furtos, de negócios ilícitos, da coisificação da pessoa, da exploração dos outros… Não é sem razão que, às vezes, se fala em branqueamento de dinheiro.

b) Que lhe seja atribuído o lugar que lhe compete numa correta escala de valores. Que se não viva para o dinheiro mas se utilize o dinheiro para viver cada vez melhor. Que não seja um fim (não se coloque nele a felicidade) mas meio para adquirir a verdadeira felicidade.

c) Que seja bem utilizado: de forma solidária e não egoísta. Não basta ter dinheiro: é preciso saber gastá-lo. Procurar, com ele, o desenvolvimento integral de si próprio e dos outros, na certeza de que é mais importante o ser do que o ter. Como diz a oração atribuída a S. Francisco: é dando que se recebe. A frase pode ser dura mas é expressiva: um jumento carregado de libras não deixa de ser um jumento.

 


2. Há pessoas com dinheiro. Com muito dinheiro. Com muitíssimo dinheiro. Em vez de fugirem com ele para paraísos fiscais peço-lhes, a bem da comunidade, que o usem contribuindo para a solução de alguns dos enormes problemas sociais com que nos debatemos:

a inexistência, em número suficiente, de creches e infantários, onde, durante o trabalho dos pais, as crianças possam estar em segurança;

a falta de habitações condignas, a preços acessíveis e com dimensões adequadas, de modo que os casais possam ter filhos e avós e netos possam conviver;

a escassez de lares de idosos para pessoas de modestos recursos.

Aplicações como estas, a que acrescento a atribuição de seguros de saúde, poderão ser uma forma de contribuir para a redistribuição dos rendimentos, de fazer justiça social, de canalizar parte dos lucros das empresas.

 


3. Que a tentativa de dar solução a estes problemas sociais não contribua para gerar outros. Quero dizer: que se faça atendendo às pessoas que colaboram nestas soluções: os operários da construção civil e os funcionários/as de creches, infantários e lares de idosos. Que se lhes dê uma remuneração digna pelo serviço que prestam. Que se atenda aos horários e às condições em que o trabalho é exercido. Que se atenda à especificidade do trabalho das diversas pessoas: uma coisa é trabalhar na construção civil, outra nas creches e infantários, nos lares de idosos. Que se não ceda à tentação de pretender fazer caridade (acima falei em justiça social) à custa de baixos salários de quem trabalha ou de condições de trabalho menos dignas. Que aqui, como nos demais ramos de atividade, o trabalho seja para a pessoa e não a pessoa para o trabalho. O trabalho seja para a família e não a família para o trabalho.

 


4. Que as pessoas com muito dinheiro se não esqueçam da função social da riqueza. Atuem com a consciência de que Deus criou o mundo para todos e não apenas para alguns. Com a consciência de que é dever de todos - cada um à sua maneira e dentro das suas possibilidades – contribuír para o bem comum.

O que uns têm a mais, é bom lembrá-lo, não lhes pertence: é de quem não possui o necessário para poder viver com dignidade. Disse S. Basílio, no século IV: se tens três pares de sapatos e dás um ao mendigo que vai descalço, não digas que lhe dás um par de sapatos, diz que lho devolves, porque lhe pertence.

Que se não pretenda, com atos chamados de caridade, encobrir faltas de justiça.

 

 

 

Silva Araújo

Silva Araújo

12 outubro 2023