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Excessos, saúde mental, silêncio e sentido

Os alertas pedem cautela pelos dias de temperaturas altas. Sucedem-se listas de desgraças, guerras em vários países, mortes de refugiados, secas; notícias de mães e bebés a morrer à fome e de um terço dos alimentos desperdiçados.

 


 Tudo, alertas, a par de incêndios em prédios, países em roturas políticas e outros excessos de informações vagas e contraditórias a sobressaltar e criar incertezas e ansiedade. Estes são alguns dos cenários pouco favoráveis à saúde mental. Cenários de calamidades mais visíveis e aceleradas não favorecem os ritmos da saúde e harmonia. Veio agora, a surpresa de investigações a mostrar que as pessoas mais inteligentes são mais lentas nas decisões e soluções dos problemas (cf. Revista Nature Communications). Nem faltam dúvidas inquietantes se o homem poderá evitar as calamidades mais aflitivas. É óbvio que serão infantis os cientistas se pretenderem matar a morte. E nem é preciso referir a inteligência artificial que as carências de saúde mental podem tornar mais selvagem e menos controlada. 

 


O excesso de informação e de canais de transmissão causam indigestão mental, desafinações e cacafonias que os génios afinados não terão tempo para resolver. Os excessos em ritmo acelerado ameaçam o desenvolvimento humano equilibrado e impedem o uso harmonioso da informação hipertrofiada que invade as mentes. Agravam-se os males da sociedade do cansaço, vazio e insensatez (enlouquecida) a que falta sentido de vida. O termo confabulação da psiquiatria exprime o sintoma a que não serão alheios totalmente os excessos de tantos comentários verborreicos de alguns canais. Os sítios dos motores de busca até parecem também exceder-se e, pior ainda, enxamear de fake news ideológicas. Resolver problemas difíceis pede mais talento, tempo, silêncio e palavras de cérebros mais sincronizados com o sentido da vida humana. E o montão de consumos intoxicantes mais corrompem o viver humano. 

 


Tudo aponta para novas respostas. O Papa surpreende com dois projetos recentes. Um deles é a “universidade do sentido” que já criou e para a qual terá convidado alguns professores. Será que o Papa Francisco considera que as universidades atuais investigam mais o científico das coisas que o sentido da vida? Apesar das expetativas sobre o aquecimento climático, tempestades, inundações, ciclones, tufões, liquefação de glaciares, o controlo de muitas calamidades não está garantido nem é expectável, por exemplo, terramotos e vulcões. E mesmo multiplicando o progresso, quem, como e quando se irá conseguir e quem serão as pessoas que irão usufruir do planeta menos tumultuoso e de maior conforto? Só os milionários e os seus animais de estimação? Entregues a si mesmos ficarão os mais pobres e miseráveis sem alimentos, água e casa? E por quanto tempo cada um dos muito ricos gozará de um planeta de luxo mais confortável? A ninguém ficará garantido para sempre. Jesus Cristo avisou: Procurai primeiro o reino de Deus e a sua vontade e tudo o mais vos será dado (Mt. 6, 33). E foi mais explícito ao referir o que para muitos é difícil de aceitar, quando deixou o alerta da parábola ao rico farto com problemas de excesso, conforto e desperdício:  'Insensato (tolo)! Nesta mesma noite, será reclamada a tua vida”(cf. Lc.12, 20). Parece que a universidade que o Papa Francisco acaba de criar ajudará a encontrar sentido de vida onde domina a insensatez e os excessos da autoestima hipertrofiada.

 


O outro projeto de alerta do Papa é a convocatória que fez no dia 1 de outubro a crianças de todo o mundo para um encontro no Vaticano. Já tem o dia marcado no Vaticano, 6 de novembro de 2023 no Auditório Paulo VI. E fez a convocatória, acompanhado de cinco crianças dos cinco continentes. E o Papa dá o sentido do encontro: aprender com elas a pertencer ao Reino de Deus. Elas ensinam relações de ternura, acolhimento e respeito pela criação. Se os adultos as escutarem. 

E na sua vigília de oração do dia 1 de outubro pediu que o Espírito Santo purifique dos excessos do muito falar e por isso recomenda mais silêncio como tempo “essencial à vida do crente” a exemplo de Jesus no início e fim da sua vida terrena: silêncio na manjedoura e na cruz para ouvir juntos o Espírito de verdade (Jo. 14, 17) e saber o que Ele diz às Igrejas, (Ap. 2,7).

 

Menos correrias, menos excessos de grandezas e desperdícios, menos autoestima narcisista, mais tempo de silêncio para percorrer juntos o caminho para o sentido de vida. E sabemos qual: «Eu sou o Caminho a Verdade e a Vida» (Jo. 14, 6).

 

 

 

 

 

 

 

 


Pe. Aires Gameiro

 


 

 

Pe. Aires Gameiro

Pe. Aires Gameiro

12 outubro 2023