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RASCUNHOS Mensagens de rua

 

Dando largas à minha apetência pedestrianista, nas habituais deambulações pela cidade, por vezes, confronto-me com situações, sejam de cariz ambientalista, sejam de cariz cultural, que me levantam interrogações e, até, confrontos éticos; e isto pressupõe que o pedestrianismo, para além dos benefícios lúdicos e físicos que em nós releva, igualmente, acarreta uma vertente cognitiva e mental. 

Há dias, numa rua do subúrbio da cidade, deparou-se-me uma frase que me aguçou a curiosidade e, consequentemente, a vontade de a escalpelizar no seu conteúdo e alcance fenomenológico; e do resultado alcançado, nesta minha presença semanal, público conhecimento aqui dou.

A frase em questão rezava assim: aqueles que passam por nós não vão sós, deixam um pouco de si, levam um pouco de nós; e encontra-se escrita na entrada de um rés-do-chão onde funciona a 2008 COOP - Cooperativa de Solidariedade Social - em letras bem visíveis e aberta à curiosidade do público que nas instalações entre ou por ali deambule. 

E frases com mensagens tão explícitas como esta encontram-se por aí aos molhos em muros de habitações ou num recanto do próprio piso dos passeios; mas com a diferença de os seus autores serem poetas ambulantes, notívagos ou mensageiros políticos, donos de abundante imaginação e pensamento profundo.

Pois bem, numa primeira e rápida análise, a frase que li leva-me a pensar na nossa condição de seres eminentemente sociais; e esta realidade que os filósofos tão bem escalpelizam define-se pela necessidade intrínseca que temos de conviver, de interagir, de vivermos gregariamente. 

Ora, a partir desta insofismável verdade, voltemos à frase que me bailou por tempos na cabeça e acabou por me empolgar à sua partilha com os meus bons leitores; e, mormente, tentar analisá-la e dissecá-la ao pormenor nos seus aspetos estruturais e na sua génese e essência. 

Então, porque os espaços públicos, amplos ou limitados, sempre são montras e palcos por onde deambulamos e nos expomos à curiosidade alheia, daqui resulta uma constante análise física, psicológica e mental que fazemos a quem connosco se cruza, nos acompanha, se expõe no banco da praça ou do jardim; e, obviamente, o inverso também acontece, quando trocamos de posição e passamos a ser por eles analisados; e, assim, deixam eles um pouco de si e nós deixamos um pouco de nós. 

Senão pensemos: o ancião que connosco se cruza e deambula só, lentamente, olhos no chão e apoiado numa bengala deixa-nos uma imagem de solidão, dependência, caducidade – é um pouco de si que nos deixa, como a jovem que de passo acelerado, porte gracioso e lampeiro de si deixa um ar de bem-estar, segurança e felicidade; e nós que com eles nos cruzamos lhes transmitimos os possíveis sinais e traços da nossa evidente presença de bem-estar ou mal-estar, de felicidade ou infelicidade. 

Depois, num contexto mais abrangente e amplo, as leituras que fazemos dos fenómenos publicamente expostos nos palcos e montras que são as ruas, as praças, os passeios, as avenidas, os cafés, os bancos de jardim com que nos confrontamos sempre são biunívocos, isto é, mantêm uma relação de correspondência e alternância entre os elementos que se cruzam ou que convivem; e, daqui, as conclusões que resultam podem ser múltiplas e alternativas: é uma pessoa afável, comunicadora, tem um porte airoso, parece doente, está muito acabada, transmite uma imagem de tristeza, de solidão e de dependência. 

Ora, a conclusão a que chegamos parece evidente e lapidar: vivemos num mundo que é uma casa comum, onde tudo tem a ver com tudo e todos e onde somos comediantes do mesmo teatro da vida, conjuntamente trocando papéis e levantando e baixando reposteiros à boca de cena; e neste palco comum se define um pouco de si, levam um pouco de nós. 

E esta imensa verdade faz com que todos sejamos colaborantes, solidários, tolerantes neste mundo que é de todos e a todos cabe tomá-lo cada vez melhor e capaz de albergar, numa convivência fraterna e de mútua causalidade, todos os seres; obviamente sem guerras, sem ódios, sem exclusões de qualquer espécie, mas plenos de partilha, paz e amor. 

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

11 outubro 2023