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Putin prossegue com a sua mentalidade ditatorial

Um discurso de Putin, apresentado há pouco, dá-nos uma ideia das suas convicções pessoais sobre como deve ser a sociedade – de que a sua Rússia actual é modelo – para os países de todo o mundo.

 E, realmente, o programa quE nos apresenta é doloroso e lastimável. Não tem uma ideia de liberdade social: a visão que mostrou reflecte, ao fim e ao cabo, o que a sua terra, melhor dito, o país que ele dirige ditatorialmente manifesta, e que apenas é louvado por quem nele manda e julga ter criado o seu paraíso humano. Mas um paraíso criado a seu gosto, onde certamente o que ele pensa e quer deve cumprir-se sem contestação e no absoluto respeito por tudo aquilo que o seu poder determina, sem qualquer oposição ou crítica contrária.

 Em suma, Putin é um ditador indiscutível e quer apresentar-se ao mundo, nomeadamente ao mundo ocidental, como uma espécie de modelo de tudo o que deve fazer-se e viver. É claro o seu desejo de supremacia, baseia-se na força militar e não num consenso democrático. Ele é uma espécie de salvador de toda a sociedade, a quem dirige os seus ditames sem eventual contestação.

Vejamos: tanto quanto se sabe, os seus opositores internos não têm liberdade de expressão e, sorrateiramente, surgem notícias do desaparecimento, da prisão ou até da morte – em situações muito complexas e suspeitas – de quem o contesta. Ainda há bem pouco tempo, um comandante militar privado, que se revoltou dum modo concreto contra as suas orientações bélicas, eve de ser acolhido num país vizinho em que domina um amigo e servidor do Kremlim. Mas depois, numa viagem de avião em que era acompanhado por seus colaboradores próximos, ocorre um problema e a aeronave despista-se no meio do voo e espatifa-se no solo, provocando a morte de todos os que nele viajavam. Como é óbvio, Putin não deixou de enviar as suas respeitosas condolências à família da vítima principal do desastre. Mas este acidente livrou-o de um comandante militar que o desrespeitou.

Num discurso recente, Putin falou que o Ocidente está orientado por ideias e poderes que têm como núcleo fundamental os Estados Unidos. E tem alguma razão. Mas quer acabar com esta configuração, oferecendo uma incógnita com a força da Rússia, sob o seu comando. E aqui surge uma questão que não é do agrado desta parte do mundo. Decerto que no Ocidente existem, sobretudo na América Latina, sistemas políticos ditatoriais, cujo aspecto é repugnante para os países democráticos. Alguns deles, como o nosso, esteve submetido a um regime semelhante, não tão folclórico e opressor, mas que não deixou muitas saudades. O mesmo se diga do país vizinho com a ditadura de Franco, após o seu triunfo na sangrenta Guerra Civil da segunda metade dos anos 30 do século passado. Os próprios países da Europa Central e de Leste, que foram satélites da União Soviética, são hoje, na sua maior parte, democracias pacíficas e normais. E, com certeza, não guardam boas recordações desses tempos de sujeição.

Não esqueça Putin, ditador que formou a sua mente de comando como membro da polícia política do regime comunista do seu país – a KGB, criminosa e usurpadora da liberdade natural dos cidadãos, que são seres humanos dotados de razão e de vontade, o que lhes permite agir em consciência de acordo com as suas convicções fundamentais – que o seu regime opressor, capaz de prender e fazer desaparecer, mais ou menos à socapa, pessoas contestatárias dos seus ditames, revela um sentido antropológico nefasto e nada atractivo. Pelo contrário, o que está a fazer na Rússia post-soviética é, de certo modo, voltar a tornar esta grande nação numa espécie de cárcere colectivo, mais ou menos dissimulado, onde a liberdade natural do ser humano não existe, ou melhor, não é permitida, a menos que se cinja às regras que quem gere o poder considera fundamentais.

Um regime ditatorial é sempre um sistema que se sobrepõe ao que o ser humano é por natureza: um ser livre, que obviamente precisa de se socorrer dum sistema político que o governe, mas reconhecendo que a sua actuação deve sempre respeitar a consciência dos cidadãos. 

 

 

 

 

P. Rui Rosas da Silva

P. Rui Rosas da Silva

10 outubro 2023