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Humanismo no HPB – a maior vitória sobre a doença

O assunto do momento, em telejornais é a greve dos médicos às horas extraordinárias. Talvez por isso, quando na terça-feira, pós vitória em Berlim as dores superaram a alegria, sem saber o motivo – pedra no rim – à meia-noite dirigi-me ao hospital privado de Nogueira porque, devido ao exposto, temia que no hospital público não houvesse condições de o fazer. Atendimento de excelência no privado, feitos os exames necessários, informaram-me que não tinham condições para resolver o meu caso, que exigia intervenção cirúrgica na especialidade de urologia. Percebi também que houve contacto telefónico prévio do médico que me atendeu com a chefe de urologia do Hospital Público de Braga (HPB) pelo que segui com carta de recomendação com os exames e a indicação da gravidade da situação. Com a minha “motorista particular” e documentação seguimos para o HPB onde a triagem (leitura) foi rápida e colocaram-me –  parafraseando Raul Solnado – num quarto particular muito grande e muito bom e para eu não me sentir sozinho estavam lá mais 40 doentes a acompanhar-me. Confesso ter apanhado um choque pois pensava, atendendo à situação, que iria ser colocado em zona pré operatória e não nas urgências (quando achamos que só nós importamos). A nova condutora da minha cama-veículo, enquanto me levava, alertou que já iria ficar estacionado em 2.ª fila, pois os restantes lugares estavam ocupados… e só iria ser visto por médica, de manhã. Percebi, no decurso da “loooonga” noite que, depois de mim, ainda entraram mais veículos que ficaram em 3.ª e 4.ª  fila. Tentando fazer humor, alertei para o perigo de multa, ao que me responderam que ali, a polícia fechava os olhos. Percebi que é como quando o SCB joga na Pedreira, só que no HPB, há jogos diariamente. Imaginem-se num espaço projetado para vinte doentes, pessoal administrativo, auxiliares, enfermeiros e médicos, com mais do dobro dos doentes e o que isso implica com quem tem de os acompanhar. Gritos lancinantes, de acordo com as dores e/ou capacidade de sofrimentos de cada um, impropérios que não podem ser transcritos e outros chamamentos que fariam corar mentes púdicas, fizeram com que para conseguir dormir e não absorver dores alheias, guardasse as próteses auditivas. Desta forma, até às 6h, quando me vieram colocar o soro, embora com algumas dores, o silêncio ensurdecedor permitiu-me passar pelas brasas. A partir daí, com as próteses recolocadas, voltou a sinfonia e cada um a sofrer duplamente, com as suas dores e as dos que os rodeavam. Na minha fila de estacionamento, estávamos 4 para cirurgia. E se de noite a "festa" foi animada, durante o dia, com as entradas e saídas de macas, trazendo e levando doentes, e com as visitas de duas em duas horas, o local duplicava ou triplicava o número de pessoas. Também tive visitas inesperadas, de um ex-aluno da década de 90 no Colégio D. Diogo, que trabalha no hospital e me reconheceu no meio da multidão, bem como alguns enfermeiras/os. Às 17h20 quando, manifestamente, já não esperava fui enviado para a cirurgia.  Enquanto era guiado por corredores e elevadores, pensei no HUMANISMO  e no SABER SER E ESTAR daquelas pessoas que nos aturam e às nossas dores naquele espaço reduzido para tantos frequenta(com)dores. Só gente com enorme espírito de missão consegue aguentar 10 a 12 horas consecutivas (pelo que percebi) aquele turbilhão de doentes cada um com os seus problemas e sentindo que o seu é sempre o mais premente. Acredito que sintam que cuidar de alguém é a sua maior vitória perante a doença. O meu "condutor" informou-me que estavam em funcionamento permanente 19 blocos operatórios e que se mais houvesse...

Chegado ao bloco, percebi que a equipa estava bem-disposta, como eu, pelo que conseguimos diálogo profícuo. Depois de iniciarem a anestesia, solicitaram que assinasse documento a autorizá-la. Era a forma criativa de verificarem se a mesma estava a fazer efeito. Depois de meia dúzia de gatafunhos olhei para o papel e disse-lhes: não tentem ir à minha conta ao banco, porque com esses rabiscos ninguém vos dá o dinheiro. Riram-se e disseram: pense em algo muito agradável. Atendendo ao dia anterior, disse – "3 bolas de Berlim” – e apaguei-me. Acordei sensivelmente 1h15m depois, na zona de recobro sendo enviado para um quarto. E porque a prosa já vai longa, aquilo que disse relativamente aos profissionais do rés-do-chão, nas urgências, digo dos que nos atendem no bloco e nos quartos. Com a vantagem para estes últimos de já nos apanharem operados, em melhor estado anímico, e podendo proporcionar-nos condições dignas. 

O meu ENORME obrigado a todos aqueles – parceiros de infortúnio incluídos – que transformaram 48 horas de um pesadelo, num son(h)o, não digo lindo, mas admirável atendendo às condições que são dadas aos profissionais de saúde.

Por isso, aqui fica o meu desafio ao ministério da saúde: tivessem vocês 1/3 do humanismo e da capacidade de sofrimento e doação aos outros que têm diariamente os trabalhadores de inúmeros HPB por esse país e tudo seria mais fácil para todos. Nos nossos hospitais, faz-se muito com quase nada. As lutas do pessoal que lá trabalha devem ser as lutas de todos nós. Porque é para nós que eles vivem, e… para nos permitir viver.

O meu enorme obrigado aos profissionais de excelência do Hospital de Braga.

 

 

 

Carlos Mangas

Carlos Mangas

10 outubro 2023