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Erguer uma torre, montar uma cerca e escavar um lagar

 

 


Terminei a crónica da semana passada com a afirmação de que é preciso mudar de vida. Quando o vinhateiro não trata bem da vinha nunca vai chegar a ser feliz, nem vai fazer felizes os que estão na sua dependência. Nesse caso, será altura para o substituir e convidar outro. Conjunturalmente, estamos numa situação de tratar da vinha a sério. No entanto, e embora se sinta que isso é necessário e até imperioso, as pessoas talvez não estejam dispostas a correr com o vinhateiro de qualquer forma. Entre o certo e o incerto, preferirão ficar na mesma, apesar de terem consciência de que isso lhes causar um pouco mais de sofrimento. E acham que não há, para já, uma alternativa clara e competente. Pessoalmente, vou com os que assim pensam, ainda que a conjuntura não esteja fácil. Os noticiários são esclarecedores e as pessoas sentem na pele as dificuldades e os problemas. A situação é grave nas urgências dos hospitais, algo a que se escusava de chegar se tivesse havido mais atenção aos avisos. A administração da justiça está paralisada e não tem havido vontade para resolver o problema que dura há demasiado tempo sem que os responsáveis tenham posto mãos à obra. As escolas estão ainda no arranque do ano lectivo e já começam a fechar com várias classes de funcionários a manifestarem descontentamento com o vinhateiro executivo que parece ter, como diz um dos sindicatos do sector, um “ódio de estimação pelos professores”. Nenhuma vinha tem bom desempenho enquanto existem tensões insanáveis entre responsáveis e subordinados. Pior, não se vislumbra um bom futuro para ninguém se não há vinhateiro com cabedal de credibilidade suficiente para despojar o que governa, ou se o que se prefigura para substituir o que manda se mostra sobranceiro ao ponto de apoucar alguns apoios de que podia dispor para partilhar a governação que o país precisa para sair da crise. A realidade que hoje consigo perscrutar é que o povo vai vendo e ouvindo sem resmungar demasiado, já descrente, mas não indiferente, à espera de melhores dias no futuro próximo. Só em 2026? Que seja, que o contrato é para ser cumprido, a não ser que uma das partes o denuncie, por incapacidade ou por incumprimento. Mas, se for antes, tanto melhor, cumprida que seja a condição essencial: que o novo vinhateiro seja bem aceite e se apresente com as qualidades necessárias. Quem sabe em 2024 – e é já daqui a pouco, daqui a poucos meses –, não surge alguém com curriculum superior e mais agregador? Na verdade, o povo não está à espera de um ídolo. Espera alguém que o entenda, que o escute, que seja capaz, mas humilde ao ponto de lhe confidenciar numa conferência de imprensa, para que todos ouçam, que se enganou, se for o caso, e que, por isso, lhe pede desculpa. O povo depende do sucesso da vinha, do melhor proveito que o administrador retirar dos seus recursos, sem espezinhar ninguém, com equilíbrio, equidade e justiça social. Foi prometido que ninguém ficaria para trás, mas são muitos os que estão a ficar nessa situação: são hoje mais os que não têm médico de família e têm que pernoitar às portas dos Centros de Saúde para se habilitarem a uma consulta; a classe média está a desaparecer, não pelas melhores razões, como seria se atingisse níveis superiores de prosperidade, mas por estar a perder qualidade de vida.

Quem vier de novo para administrar a vinha vai ter de limpar o terreno das minas deixadas, dos caminhos perigosos e das pedras que impedem o melhor percurso. E, com humildade e sentido de Estado, construir um muro de cerca contra toda a corrupção, uma torre de vigilância que previna os desvios à prática democrática e proteja a vinha de toda a mentira, e ainda um lagar onde entrem bons frutos, onde haja honestidade e fidelidade para com os clientes e, acima de tudo, onde se pratique a justiça social. Nada de mentiras, nada de pessoas deixadas sós ou abandonadas e nada de obsessões ideológicas. É preciso ir pensando a quem devemos arrendar a vinha!... 

 

 


 

Luís Martins

Luís Martins

10 outubro 2023