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Cães e/ou gatos  em carrinho-de-bebé

 

 

 

 

 


Não é tão pouco habitual assim, vermos pessoas a passearem os seus ‘animais de estimação’ em carrinhos, que, em tempos não muito recuados, eram usados para transportar crianças. E, se não tivermos cuidado, somos ainda surpreendidos pelos nomes (de humanos) dados aos ocupantes dos ditos veículos de puericultura. A mudança foi rápida e, pasme-se, quase generalizada. Talvez seja, por isso, avisado reparar melhor nos ocupantes de carrinho de bebé, não vá alguém ser surpreendido pelo latir de um cão ou o miar de um gato, onde se esperava o choro de uma criança, em hora de acordar! 

 


1. Esta encruzilhada cultural – e porque não mesmo civilizacional – pode e deve colocar-nos perguntas, questionamentos e desafios. Antes de mais: por que chegamos a este fenómeno de trocar o afeto (dado) aos filhos pelos dos animais? Que mudou tanto para que possamos sentir mais dedicação aos animais do que às pessoas? Esta tendência de exaltação dos animais não será mais do que meramente ideológica? A quem interessa defender os animais, se, na prática, fazem deles escravos presos à trela em vez de viverem livres sem peias nem atropelos de serventia dourada? Certas proteções a animais não encobrem tiques de instrumentalização aos ditos por parte dos malfadados donos? Os animais não servirão, mesmo que de forma inconsciente, para procurar outras compensações emocionais a muitos dos devotados donos? Não será mais complicado sustenta um animal – tenha a estatura que possa ter – do que alimentar e cuidar uma criança?

 

2. Estamos num tempo de viragem, na medida em que muitos dos comportamentos têm tanto de ‘normalizado’ na conduta das pessoas quanto parece ser uma onda que percorre famílias e regiões quase de forma acrítica. Em tempos não muito recuados constou que algumas pessoas mais idosas estavam dispostas a confiar o seu voto, nas eleições legislativas, a partidos que se apresentavam defensores dos direitos dos animais, pois, diziam na sua inocência, que esses defendiam quem lhes dava companhia… Efetivamente, essas formações partidárias souberam ir ao encontro das necessidades das pessoas mais fragilizadas, conferindo-lhes a expetativa de que algo seria feito…teoricamente. Decorrido algum tempo tudo se tornou bluff e a votação encurtou para esclarecimento de todos, mesmo dos vendedores de sonhos…

 


3. «Há dias, falei sobre o inverno demográfico que há atualmente: as pessoas não querem ter filhos, ou apenas um e nada mais. E muitos casais não têm filhos porque não querem, ou têm só um porque não querem outros, mas têm dois cães, dois gatos… Pois é, cães e gatos ocupam o lugar dos filhos. Sim, faz rir, entendo, mas é a realidade. E esta negação da paternidade e da maternidade diminui-nos, cancela a nossa humanidade. E assim a civilização torna-se mais velha e sem humanidade, porque se perde a riqueza da paternidade e da maternidade. E a Pátria que não tem filhos sofre e – como dizia alguém um pouco humoristicamente – “e agora quem pagará os impostos para a minha reforma, que não há filhos? Quem se ocupará de mim?”: ria, mas é a verdade».

Já foi há algum tempo (5 de janeiro de 2022) que o Papa Francisco disse as palavras que citamos, no entanto, elas continuam a fazer sentido não só na observação ao nosso comportamento coletivo como devendo questionar o mais básico da nossa conduta pessoal e moral/ética. Com efeito, enquanto nos espaços de compras as coisas para animais ocuparem mais terreno do que aquilo que se destina às crianças parece que estamos falados ou andaremos a tentar enganar-nos… conscientemente. 

 


4. Que pais e mães teremos se substituem os filhos pelos animais, mesmo que sejam de estimação ou de companhia? Não andaremos a reboque de modas e de facilitações sonegando às gerações vindouras o futuro que mereciam? Ainda estamos em tempo de arrepiar caminho e de escolher segundo os valores cristãos mais essenciais…

 

 

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

9 outubro 2023