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“Arquiteto de sonhos” e “plantador de esperança”

Celebrou-se, na passada quinta-feira, dia 5 de outubro, o Dia Mundial do Professor. Dado que ser professor é a mais importante profissão (vocação até será o termo mais correto!), por ser a base de todas as outras, este dia reveste-se de particular importância e constitui uma homenagem a todos os protagonistas da educação. Visa, por isso, enaltecer os que escolheram o ensino como forma de vida e se entregam à missão de educar; e também alertar a sociedade para a dignidade e a importância, hoje pouco reconhecidas, que o professor assume, enquanto “arquiteto de sonhos”, “engenheiro do futuro” e “plantador de esperança” (Bráulio Bessa). 

A data foi estabelecida pela UNESCO, em 1994, com a finalidade de chamar a atenção para o papel fundamental, com efeitos presentes e futuros, dos professores na sociedade e muito concretamente na instrução da população. Dado que “um professor influi para a eternidade; nunca se pode dizer até onde vai a sua influência” (Henry Adams).

Numa sociedade em que os professores são desvalorizados – esta é uma das razões para a sua escassez! – nunca é excessivo afirmar a sua dignidade e relevância social: “se não fosse imperador, desejaria ser professor. Não conheço missão maior e mais nobre do que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro” (D. Pedro II, imperador do Brasil).

Tendo em conta que “a tarefa essencial do professor é despertar a alegria de trabalhar e de conhecer” (Albert Einstein), posso confessar-vos que tive alguns excelentes professores. A professora primária, de quem eu muito gostava1, alguns dos professores do secundário e das universidades que frequentei assumiram, para mim, um papel preponderante. E não tanto pelo que sabiam e ensinavam, mas sobretudo pela forma como se apresentavam e pelo entusiasmo com que me motivaram para a importância de aprender. Sempre lhes dispensei deferência e gratidão, mas nunca tive oportunidade de lhes fazer uma pública homenagem. Aqui fica! 

Alguns desses professores transpiravam erudição, outros foram sobretudo mestres, na medida em que me inspiraram um modo de ser e de estar no mundo e na vida2. E a verdade é que o professor exerce tanto melhor a sua missão quanto mais for mestre. Aliás, “ser mestre não é de modo algum um emprego e a sua atividade não pode aferir-se pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro” (Agostinho da Silva).

Professor que sou, não posso concluir sem deixar uma mensagem “aos velhos e jovens professores, aos mestres de todos os tempos que foram agraciados pelos céus por essa missão tão digna e feliz. Ser professor é um privilégio. Ser professor é semear em terreno sempre fértil e encantar-se com a colheita. Ser professor é ser condutor de almas e de sonhos, é lapidar diamantes” (Gabriel Chalita).

E para fechar com palavras de esperança, em tempos conturbados, no que concerne ao ensino, nada melhor do que o poema de Bráulio Bessa, poeta cordelista brasileiro, tal como o encontrei (com escassa pontuação!), intitulado A Força do Professor:

 
Um guerreiro sem espada
sem faca, foice ou facão
armado só de amor
segurando um giz na mão
o livro é seu escudo
que o protege de tudo
que possa lhe causar dor
por isso eu tenho dito
Tenho fé e acredito
na força do professor.

Ah... se um dia governantes
prestassem mais atenção
nos verdadeiros heróis
que constroem a nação
ah... se fizessem justiça
sem corpo mole ou preguiça
lhe dando o real valor
eu daria um grande grito
Tenho fé e acredito
na força do professor.

Porém não sinta vergonha
não se sinta derrotado
se o nosso país vai mal
você não é o culpado
Nas potências mundiais
são sempre heróis nacionais
e por aqui sem valor
mesmo triste e muito aflito
Tenho fé e acredito
na força do professor.

Um arquiteto de sonhos
Engenheiro do futuro
Um motorista da vida
dirigindo no escuro
Um plantador de esperança
plantando em cada criança
um adulto sonhador
e esse cordel foi escrito
porque ainda acredito
na força do professor.

 

 

 

 

 

 

 


1 Razão tinha Erasmo de Roterdão, quando afirmou que “a primeira fase do saber é amar os nossos professores”. A minha professora primária era nobre no trato, respeitadora e carinhosa. Ao contrário da maior parte dos professores da época, não precisava de falar alto nem de usar qualquer tipo de coação. Figura veneranda, impunha-se não só pelo seu saber, mas sobretudo pelas suas qualidades humanas. 
2 “O professor medíocre descreve, o professor bom explica, o professor ótimo demonstra e o professor fora de série inspira” (William Arthur Ward). De facto, “a figura do professor é mais importante do que o que ele ensina” (Karl Menninger).

P. João Alberto Correia

P. João Alberto Correia

9 outubro 2023