twitter

Direito à indignação? Sim, com certeza!

 

 


Gritos de revolta ecoados nos idos de noventa para molestar um governo que abafava a onda vermelha e rosa cansada de ver o poder em mãos alheias. Azedume que saía das entranhas daquele que se achava o pai e o dono do regime. Manifestação de incómodo e insurgente que mobilizava as hostes derrotadas pela vontade popular. Naquele tempo, o direito à indignação era um direito de uma facção que se arrogava de serem os predestinados da madrugada de Abril. A longa travessia no deserto construiu outras miragens e tudo era denegrido ideologicamente. Era impensável que um provinciano tivesse as guias do poder e logo legitimado pela vontade popular.

 


1 - O país está, sem dúvida, um caco. E causa dó. O poder cheira a velho e já se arrasta há muito tempo. E ainda descaradamente se indigna. Coisa estranha! Sem norte e com as forças esclarecidas da ribalta cultural a quedarem-se em desencantos espera-se por novidades que não chegam para recolocar a governação neo-socialista na rota certa. Só não consegue por mera incapacidade. É uma evidência. 

As elites ideológicas, vergadas pelos interesses de classe se encantaram com as habilidades do mágico da geringonça que, em jeito sebastianista, descortinava o nevoeiro das austeridades, dando a ideia que o futuro seria, enfim, risonho, um mar de rosas, numa terra abençoada que mana leite e mel a rodos e para todos. 

Esgotadas as reservas, acumuladas pelos pesados sacrifícios impostos, tudo funciona a bordo, agora, aos sopapos. Basta olhar para a Saúde. O poder, em silêncios e em desvalorizações estratégicas, esconde incapacidades para remover os graves problemas de uma sociedade bastante desiludida e empobrecida que se afunda num charco de casos e de casinhos. De vez em quando, o mestre da paródia lá aparece nos seus aposentos partidários a mandar uns açoites, soltos e emproados, a trespassar as culpas dos buracoes para os mesmos de sempre. Desta vez, foram os municípios que receberam as estocadas pela carência habitacional. Treta repetida e repetida ridiculamente pelos seus delfins que, em busca do tachito, perderam o pé e o tino e fazem a triste figura de marionetes. Especializaram-se nesta matéria!

 


2 - Com a recusa dos médicos de fazerem horas de trabalho extraordinário além do estipulado, as urgências hospitalares vão entrar em colapso, já este mês. Pelo andar da carruagem, nota-se que as preocupações manifestadas pelos responsáveis se pautam no domínio dos mínimos, esperando, certamente, que milagres aconteçam. O que importa é passar pelos pingos da chuva, mesmo que a molhadela seja para encharcar os pobres dos pacientes. Eles, os cimeiros, protejam-se sempre. A Saúde não está nada de boa saúde. Sofre de patologias ideológicas que são escamoteadas com umas tretas bem faladas que lançam os anátemas para outras paragens. E anda-se nisto há décadas, mesmo que a matriz necessite de ser internada para revisão.

 


3 - Finalmente, o charco da Educação foi mexido. O líder do PSD se dispôs a reparar, em cinco anos, a estagnação do tempo de serviço trabalhado pelos professores, mas não contado. Uma verdadeira bofetada para combater uma injustiça alapada; para contornar o absurdo só perceptível em tempos de crise financeira profunda; para aliviar a afronta descarada a uma classe insubstituível num quadro da educação, da formação e da valorização social e cultural. Perante o desafio lançado pelo PSD, o governo, como de costume e até para limpar a face, vai chumbá-lo na Assembleia da República, depois denegrir a proposta e, ao mesmo tempo, numa correria louca vai à procura de outros paliativos para iludir o consumidor ideológico, seu apaniguado.

 


4 - Uma eleição é uma eleição e as eleições não são favas contadas. Muita coisa pode acontecer. Há efectivamente imponderáveis, como a vitimização. A este propósito, já li linhas demais e já ouvi tretas infindas acerca das eleições na Madeira. É verdade que Miguel Albuquerque falou demais, pensando que a chantagem eleitoral pega sempre. Ou seja, o jogo do “tudo ou nada”. Enganou-se neste jogo. Deveria ser mais cauteloso e menos soberbo. Mas, também é verdade que venceu categoricamente estas eleições regionais, facto que muita gentinha quer desvalorizar. O arrasado, o grande derrotado, foi o PS que perdeu oito deputados, quando se preparava para cantar vitória. Da derrota do PS ninguém fala ou esquivam-se de comentar. Até o primeiro-ministro se remete na cápsula da politiquice a um silêncio tonto e dorido. Só temos líder para as coisas boas. As outras, entram no cardápio da desresponsabilização. E do “direito à indignação”.

Armindo Oliveira

Armindo Oliveira

8 outubro 2023