twitter

Bom dia, Senhor Presidente

 

Estava eu convencido que V.ª Exª era um confiante nas instituições e eis que ouvido o seu discurso no pretérito dia 5 de Outubro, fiquei perplexo e ao mesmo tempo preocupado com tanto pessimismo vindo de alguém que ainda há bem pouco tempo (em 2021), respirava confiança nas instituições, entoando uma balada relaxada e despreocupada face aos alertas que sucediam sobre as fragilidades do nosso sistema democrático. V.ª Exª saberá, melhor do que ninguém, que não se trata nem de ser otimista nem pessimista irritante, mas apenas realista, para perceber que as suas palavras, no Dia da República, pecam por tardias, foram mediatizadas pelas circunstâncias e quando assim é, o seu valor soa mal e acabam como todos os alarmes fora de tempo: soam a falso. Não creio que aqui se possa aplicar a história de “Pedro e o Lobo”. Desta vez, Pedro não mentiu, o Lobo anda por aí há muito, mas como só ferrou e não matou ninguém, o povo, tomou-o, com cuidado, de soslaio, mas nada mais; a vida continua e, como já percebeu senhor Presidente, a vida está difícil, de tal forma que umas ferradelas não farão mal, a julgar pelas reações de indiferença com que as suas palavras entraram pela cozinha dentro de cada casa. Ninguém saiu à rua a vociferar contra as referidas e em tudo o mais a que aludiu no seu discurso, só o interesse dos OCS o ajudaram a marcar espaço no prime time. É muito pouco, como já percebemos, quando, como admite, em matéria de Democracia, esta tem de ser defendida todos os dias. Permita-me, por isso, que lhe diga com toda a honestidade, que provavelmente, o único acerto desta reflexão que nos trouxe, é que antecipar os problemas, ter capacidade de perceber quando e como atuar, não é coisa de somenos. Nós por cá, há muito que falamos das reformas das instituições, nomeadamente daquelas de que ninguém quer ouvir falar, dos partidos, mas com todas as dificuldades que daí advém, insistimos e continuamos a afirmar que os defeitos não se remedeiam, eliminam-se, demore o tempo que demorar. Saberá V.ª Exª, melhor do que ninguém, que a sua e a minha geração não se quiseram dar ao trabalho, para em devido tempo, dar a atenção devida às fraquezas do sistema que davam mostras de atingir o país de forma desigual, perpetuando as dificuldades, impedindo o necessário equilíbrio entre as expectativas e a qualidade de vida desejada por cada uma e cada um para si e para os seus. Como não atuamos preditivamente, andamos décadas perdidos com o discurso reativo que tem sido apanágio de eleitos que, como o senhor Presidente, acordaram tarde para um problema que já minou o suficiente para pôr em causa o equilíbrio político baseado no respeito pelos valores da Democracia e pelas amplas liberdades conquistadas. Como sou um realista irritante, não me senti apanhado pelo discurso que começa a evidenciar uma sintomatologia própria de um “motor gripado”. Pois é, senhor Presidente, há dois anos, sem manifestações nem caos na Saúde, na habitação ou na Educação, tudo parecia rolar sobre o prisma da normalidade. No entanto, a Democracia já padecia de doença grave, a exigir tratamento, os seus fundamentos exigiam uma intervenção de fundo no plano da Educação e uma casa para “viver”, ou seja, um lugar próprio onde fosse possível desenvolver o Diálogo permanente entre eleitos e eleitores, um lugar onde a afirmação de tudo o que a sua e a minha geração tem defendido ao longo de décadas fizesse sentido. Nada disso aconteceu. O investimento não apareceu e não houve interessados no concurso, ao que sei, por manifesta falta de interesse – falta de perspetiva de lucro político ou outro – o que também, perceberá, é efeito e causa da mesma debilidade crónica do sistema democrático. Assim, e esperando que esta esta missiva não sirva para outra coisa, de que alertá-lo para a incapacidade de reforma das atuais instituições, cuja construção foi alicerçada em fundações movediças, seria melhor para todos nós que as reformas das instituições, avançadas por V.ª Exª, fossem, antes de mais, um combate à Indiferença com que as portuguesas e os portugueses olham para as ameaças do lobo. Quanto ao Pedro, parece não haver outro remédio senão o de lhe explicar que gritar e fazer-se ouvir, nem sempre resultam quando queremos chamar a atenção.

Paulo Sousa

Paulo Sousa

8 outubro 2023