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A Escada

Muitos leitores recordar-se-ão, decerto. Algures pela transição dos séculos XX/XXI, com um perfil algo xenofóbico, circulavam pela net imagens muito depreciativas sobre a Roménia, como fossem automóveis a circular na estrada puxados por animais de carga.

 O conhecido comediante e produtor britânico Sacha Baron Cohen socorreu-se mesmo da aldeia romena Glod como cenário para o seu filme Aprender Cultura da América Para Fazer Benefício Glorioso à Nação do Cazaquistão, no qual ridiculariza, com evidente exagero, os costumes e a sociedade deste país asiático. O filme foi proibido no Cazaquistão aquando do seu lançamento (2006), com as autoridades locais a ameaçarem processar o produtor Cohen. Mas alguns anos depois (2012) o ministro dos Estrangeiros do Cazaquistão sustentaria que, afinal, o seu país até poderia agradecer a Borat (o repórter fictício que descreve o país neste filme de Cohen) pela muita publicidade gratuita que lhe fora dispensada, pois o número de pedidos de vistos de turista para entrada no mesmo havia-se, entretanto, multiplicado por dez. 

Já no que respeita à aldeia romena de Glod, alguns habitantes locais, afirmando-se ludibriados por Cohen, que os havia remunerado – mal, alegavam ademais – como figurantes, prometiam, enfurecidos, que o empalariam se alguma vez o mesmo voltasse a pisar a sua terra.

Agora, depois de todo este “preâmbulo” a rondar uma criação do universo da comédia, antes que o leitor se exaspere, fixemo-nos no presente e no ponto que mais nos interessa.

 Foi notícia nesta semana que a Roménia já terá ultrapassado Portugal no indicador do PIB per capita, conforme é frisado num estudo surgido no seio da Faculdade e Economia do Porto. Decorrida sensivelmente uma vintena de anos durante a qual o crescimento médio da economia do nosso país foi meramente residual, tropeçamos sucessivamente na direção da cauda da UE, e somos chegados a um tempo, em 2023, em que também a Roménia já nos terá ultrapassado. 

Relativizemos, exigem os otimistas. Algum conforto subsiste ainda, de facto. Atendo-nos aos dados do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) patentes no Relatório de 2021/22 publicado pela ONU, observa-se que Portugal permanece no grupo dos países considerados de “desenvolvimento muito elevado” (um conjunto de 66 países, desde a primeiríssima Suíça até à última Tailândia, no qual também cabem a Rússia, a Bielorrússia, Trinidade e Tobago, ou… surpresa, o Cazaquistão, por exemplo), ocupando o lugar 38 e ganhando à Roménia, que ocupa o lugar 53.

 O IDH da ONU, para lá do PIB per capita, contempla indicadores como a ”esperança de vida à nascença”, os “anos de escolaridade previstos” na educação para os jovens e a “média de anos de escolaridade” efetivamente passados na escola, itens onde Portugal ganha à Roménia, o que explica a diferença de posicionamento global entre estes dois países.

Ou seja, fruto de uma política de rendimentos mais redistributiva, de um Serviço Nacional de Saúde e de uma Escola Pública globalmente mais eficazes Portugal acaba por ultrapassar no IDH países com rendimento per capita mais elevado, como sucede relativamente à Roménia (por razões assemelhadas, os Estados Unidos, que ostentam um PIB per capita semelhante ao exibido pela Suíça e a Noruega, respetivamente os 1º e 2º nessa lista, surgem apenas na posição 21).

O problema? O Serviço Nacional de Saúde patenteia hoje muitas fragilidades, a Escola Pública exibe insuficiências e os salários não crescem em Portugal (exceto o salário mínimo), observando-se mesmo uma progressiva perda real em muitos grupos profissionais relevantes, como seja nos designados quadros ou técnicos, no setor privado como no Estado. 

 Conclusão: a manter-se a degradação nestes indicadores, a nossa pobreza não será mais disfarçada, e bem que podemos esperar a prossecução da descida na escada do desenvolvimento. Porfiemos por mais, e amaciemos a dor, suspirarão os calmos. Talvez tudo não passe de uma fatal e maldita conjugação entre a geografia e o desenvolvimento: estamos empedernidamente na periferia da Europa!

* Doutorado em História Contemporânea pela Universidade de Coimbra

 

Amadeu J. C. Sousa

Amadeu J. C. Sousa

7 outubro 2023