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Escuta e diálogo

1. Está a decorrer no Vaticano a XVI assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos. Principiou ontem e termina no dia 29. No vídeo com a intenção de oração do Papa para este mês de outubro o Santo Padre pede que se reze “pelo Sínodo”, pela Igreja, “para que adote a escuta e o diálogo como estilo de vida”.

Peçamos, disse na homilia da vigília ecuménica do dia 30 à noite, «que o Sínodo seja kairós de fraternidade, um lugar onde o Espírito Santo purifique a Igreja das murmurações, das ideologias e das polarizações».

 


2. Fala-se muito, sobretudo nos últimos anos, na igreja sinodal. E uma igreja sinodal é precisamente uma igreja que escuta e dialoga.

Isto implica mudança profunda na ideia que às vezes se faz da Igreja. Sem deixar de reconhecer a necessidade de uma autoridade, que todos aceitam e respeitam, a Igreja é, fundamentalmente, o Povo de Deus. Igreja somos todos os batizados e não apenas o Papa, os bispos e os padres. Todos, como insistentemente dizia o Papa na Jornada Mundial da Juventude. Sem deixar de ter presente a interpretação dada pelo cardeal Américo Aguiar – todos não ignifica tudo – a verdade é que todos não são apenas alguns. Não são apenas os que lideram. E quem lidera (faz falta quem desempenhe esse ministério) exerce um serviço a favor da comunidade e não dos seus interesses pessoais ou do seu grupo de amigos.

 

 

3. A Igreja sinodal implica, em muitos casos, mudanças de comportamento e de relacionamento. Não cabem nela atitudes de mandões e de chefões. Exercer a autoridade e abusar da autoridade são realidades diferentes.

Uma igreja sinodal é uma comunidade de irmãos, cada vez mais conscientes do que é seguir Jesus Cristo nos tempos de hoje.

Na igreja sinodal todos têm vez e voz. Sempre com respeito e amor – este é a senha que nos identifica como cristãos – que nenhum dos membros da igreja se considere dispensado do direito/dever de intervir. De dizer o que pensa e o que sente. E que os demais, a começar por quem lidera, saibam escutar.

Na homilia que fez aos novos cardeais, em 30 de setembro, o Papa falou de uma igreja sinfónica, onde é fundamental a escuta mútua.

Também pode haver necessidade de nos corrigirmos uns aos outros, como fez Paulo a Pedro (Gálatas 2, 11-14).

Escutar e não apenas ouvir; prestar atenção ao que o outro diz. Escutar não é como conversar com o rádio ligado.

 

 

4. O diálogo, de que tanto se fala e muito pouco se pratica, é uma rua de dois sentidos e não uma larga avenida de sentido único. É o direito de falar e o dever de escutar. Dialogar é muito diferente de dar ou mandar recados.

Se quem lidera se recusa a escutar, mata o diálogo.

Quem quer dialogar tem de estar disposto a escutar também coisas que lhe possam ser desagradáveis. E aqui reside uma das dificuldades do diálogo e uma das razões por que a ele se furtam. Quando dialogar vai além de dizer amém e de bater palmas… está o caldo entornado.

Lê-se no Evangelho de S. Lucas (9, 43-45) que quando Jesus anunciou pela segunda vez a sua paixão os discípulos tinham medo de o interrogar sobre tal assunto. Há realmente pessoas que têm medo do diálogo e então fogem à conversa. Mas sem verdadeiro diálogo não existe verdadeira comunidade nem verdadeira igreja sinodal.

Dialogar é reconhecer a dignidade do outro. Tratá-lo como pessoa livre e responsável e não como um robô.

Lidar com pessoas não é lidar com manequins.

Silva Araújo

Silva Araújo

5 outubro 2023