twitter

Amadeus, Salieri e a Política

O oscarizado filme de 1984 "Amadeus", baseado na peça de teatro do mesmo nome, tem como tema central a relação entre os músicos Salieri e Mozart na corte de Viena no final do século XVIII. Embora não esteja demonstrada a veracidade da trama, na obra de Milos Forman, Salieri sucumbe à inveja face ao génio de Mozart. Vive para prejudicar a sua carreira, através da influência de ser o primeiro Mestre-Capela na corte de Viena, sob a capa duma simulada amizade em que Mozart acreditava.

Salieri vocifera contra Deus por humilhá-lo ao ter criado Mozart: infantil, mal-educado, irresponsável, mas... genial! - "Dio Ingiusto, exclama, vós sois meu inimigo eterno..." Declara guerra a Deus por intermédio de sua criatura preferida – Mozart, chamado Amadeus. Termina com a confissão de ter envenenado Mozart, que morreu prematuramente aos 35 anos, na miséria e enterrado em vala comum.

Na época, porém, Salieri foi um dos músicos mais famosos da Europa, preferido do imperador, tendo composto 40 óperas e 12 oratórios que as grandes capitais da Europa conheceram e aplaudiram. Era muito talentoso por graça de Deus, mas isso não lhe foi suficiente face à genialidade de Wolfgang.

Descentremos da matéria moral: e se, ao invés de Salieri ter contribuído para a miséria de Mozart e morte precoce, por inveja, tal como o ciúme no Otelo de Shakespeare, o tivesse antes amparado, que outras obras o genial poderia teria composto vivendo os mesmos 65 anos de Bach? Que benefícios poderiam ter decorrido para a humanidade!

Na política encontramos situações destas correntemente. O enfoque aqui é se os partidos democráticos não deviam contribuir responsavelmente para a estabilidade governativa, sobretudos nos casos de inexistência de maioria absoluta de mandatos parlamentares ao contrário de, logo que anunciados resultados das eleições, se indisponibilizarem para dar apoio ou imporem condições draconianas para o prestar, por mera inveja ou apetência de poder.

Vejamos o caso da Espanha: o partido popular ganhou as eleições com maioria simples e o Rei convidou o seu líder Alberto Núñez Feijóo para formar governo. Tal como na primeira, na segunda sessão da passada sexta-feira o hemiciclo do Congresso dos Deputados espanhol rejeitou a sua investidura como primeiro ministro, tendo faltado 4 deputados em 350 para o conseguir. O Partido socialista espanhol votou contra, sendo que a sua abstenção permitiria a nomeação de Feijóo. Agora, caberá a Sanchez tentar formar governo em nome do PSOE, mas para tal desiderato tem de obter os votos dos independentistas da Catalunha, que já exigiram um referendo para a sua independência. Pergunta-se, será melhor para o país e para os espanhóis, um governo do PP, ou uma aliança PSOE / independentes da Catalunha, correndo o grave risco da desagregação da Espanha? Sem dúvida que os programas políticos de PSOE e do PP são mais idênticos que os dos restantes partidos. Então, se todos afirmam que estão na política para servirem o país, a causa pública, porque se unem com partidos que defendem outras causas? Evidentemente que é por apego ao poder, por um lado, mas também porque preferem o lamaçal do que apoiar o rival. A diferença para a relação Salieri – Mozart é que na política a inveja é recíproca.

Claro que isso passa-se em todas as democracias europeias. Em 2015 a coligação PSD / CDS ganhou as eleições com maioria simples, mas a apetência pelo poder do PS e a inveja de ser o rival a governar, levou-o a geringonciar com os partidos da extrema-esquerda com programas políticos muitos mais distantes do PS que o PSD, com consequências manifestamente nefastas para a qualidade da governação e penalizadoras dos portugueses. Se as projeções de distribuição de votos atuais se mantiverem nas próximas eleições, podemos cair num pântano, designadamente se PS ou PSD ganharem com maioria simples. Ou uma nova geringonça à esquerda, ou nada se a maioria for de direita e tornar-se necessário o apoio do Chega. A este partido pergunta-se: Será preferível deixar cair as suas exigências, como a de ter 4 ministros e apoiar parlamentarmente o PSD, ou insistir e deixar a geringonça de esquerda governar? O ideal será PS ou PSD absterem-se nas leis essenciais como o orçamento que permitam ao minoritário governar, mas isso parece impossível. E louve-se o PAN pelo apoio a Miguel Albuquerque na Madeira sem imediatas exigências prévias.

Carlos Vilas Boas

Carlos Vilas Boas

5 outubro 2023