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Mudar de vida

Acho que já aqui escrevi a coberto de um título igual, mas não tenho a certeza. Em todo o caso, como um chapéu serve tanto para o sol como para a chuva, o tema encaixa na prosa de crónica que hoje aqui trago. 

A conquista por lugar na vinha do povo tem falhas que não escapam à crítica. Não é uma questão de processo, que esse está tipificado e suportado na lei, mas de comportamento de candidatos, organizações e leituras erróneas dos textos fundamentais. O respeito pelos eleitores exigiria o uso escrupuloso de atitudes de coerência do género sim sim, não não, o que engrandeceria a democracia, mas não é isso que tem acontecido. Facilmente se envereda pelo incumprimento da palavra, que vale cada vez menos nas coisas da representação e da governação. O povo tem vindo a reagir, contudo, nem sempre da melhor forma, como quando se abstém de participar. Os infractores não se vão importar enquanto a lei for a que existe e os administradores não fizerem um exame de consciência a sério.

Há quem diga sim, que se comprometa com alguém, com os eleitores, com um país e depois falhe. Não faltam os exemplos e os tempos actuais servem bem de testemunha disso mesmo. Promessas que serviram para guardar lugares e para governar o país e que agora se não cumprem ou se desmentem. Desmentem-se quando, não sendo capazes de cumprir, os governantes alegam, esfarrapadamente, que o problema já vem de trás ou que sempre se fez de determinada maneira, apesar do programa partidário ou as declarações eleitorais desarmarem, com grande nitidez, o que afirmam nas alegações em defesa do incumprimento. Dizem sim, criando a expectativa, enquanto candidatos, de que serão os melhores a satisfazer os interesses e reivindicações dos eleitores, mas acabam na negação do que consideravam fazer para aliviar o povo dos seus tormentos e aflições. Ficam-se nos ritos, na afirmação de que o povo votou neles e lhes deu uma maioria absoluta para governar. A vinha acaba, muitas vezes, por ser governada com sobranceria, em circuito fechado, e a ameaçar o regime. Quanto maior é a maioria, maiores são as possibilidades de incumprimento de promessas que se fizeram à partida e esta evidência é perigosa.

Também há quem diga que não, quem esteja visceralmente contra e depois venha a fazer aquilo que jurou alguma vez fazer, pelo contrário, que retiraria consequências de algum acontecimento ou de alguma circunstância que não admitia ultrapassar. Dizer não pode significar clarificar águas, marcar limites, mas também fazer pressão para ganhar eleições, uma hipocrisia que depois se aceita como se nada tivesse sido dito. Tivemos bem recentemente uma situação destas em que não foram retiradas consequências depois daquilo que antes se considerava um desastre e que acabou dourado por simples afeição ao poder. Não cumprir a palavra é, infelizmente, uma constante, agora e antes, mas com algum requinte nos últimos tempos. Numa parte da vinha do país, ainda há dias se não aceitava governar em condições menos vantajosas para logo se voltar atrás na declaração de intenções quando o cheiro a poder foi mais forte. Os políticos têm que ser consequentes, nem que seja por uma questão de credibilidade.

Há também quem diga não, que não remodela, que não substitui, só para fazer frente ou fazer pirraça a alguém ou a alguma instituição, numa iniciativa individual ao alcance apenas de alguns, num despropósito incompreensível que prejudica o conjunto. E há quem diga que sim, que fará com que o teimoso recue, mas depois não faça nada. Alguns dirão que quem teima no não ou no sim é alguém cumpridor, pessoa de palavra, mas a realidade tem demonstrado que as coisas não são bem assim. Fixo-me nas palavras de um líder político que disse há dias que não precisava de outro para governar. Tenho para mim que as vá engolir na hora da verdade e dizer o contrário. Claro, se conseguir chegar lá. Mudar de vida precisa-se, mas nem sempre se faz para melhorar a vinha do povo.

Luís Martins

Luís Martins

3 outubro 2023