twitter

Uma dura recordação da infância

 


Todos temos recordações do passado. Às vezes, agradáveis, divertidas e sempre oportunas para relembrar. Mas nem tudo são rosas, como costume dizer-se, nesta vida. E talvez sejam esse tipo de situações que marquem mais o nosso historial. Trazê-las ao presente, pode, por vezes, representar um sacrifício, porque surgem sempre como momentos indesejáveis, que gostaríamos que não fizessem parte do que a memória guarda como património.

 Deveria, na altura do que vou contar, ter cerca de dez anos. Frequentava uma escola do Porto. Andava então, como se dizia, na 4.ª Classe. Porque morava nos arredores da cidade tinha de tomar todos os dias um comboio, que me levava do local onde vivia até à estação de S. Bento e, à tarde, realizava o percurso inverso. Como as aulas acabavam cerca de duas horas antes do meu regresso ao local onde morava, ficava na escola a fazer os trabalhos de casa cerca de hora e meia. Habitualmente, passava esse tempo sozinho, porque todos os meus companheiros viviam pelas cercanias desse centro de ensino. Depois saía para a estação do comboio, que ficava a cerca de vinte minutos de distância, não sem pedir antes autorização ao Senhor António, que, salvo erro, era o guarda da escola. Creio que ficava lá durante o fim das aulas até à manhã do dia seguinte, pernoitando num lugar apropriado.

 Numa dessas tardes, não sei já por que razão, ficou na sala a estudar um colega mais novo, com o qual, além de fazer os trabalhos de casa, disputou comigo vários jogos de criança, já que o que era obrigatório fazer para as aulas do dia seguinte não ocupava mais de meia hora. 

 Entretidos com as nossas agradáveis ocupações, começámos, estranhamente, a ouvir uns gritos de aflição de alguém que se encontrava numa situação difícil. Pedia socorro e via-se que a sua capacidade de clamar por auxílio ia piorando cada vez mais, porque se notava um progressivo abrandamento dos seus clamores. 

 Interrompemos os nossos entretimentos e fomos à janela da sala de aula onde nos encontrávamos. E ficámos aterrados. Um homem esfaqueava sem qualquer piedade uma mulher, que acabou por se encostar a um vão de uma porta, que tentara abrir para se refugiar, mas sem o conseguir. Os gritos chamaram rapidamente muitas pessoas, entre as quais, um velho alfaiate que tinha a sua oficina ao lado da casa da criatura esfaqueada. Apareceu com uma vassoura disposto a fazer justiça ao agressor. Berrava repetidamente: “Assassino, assassino!” O homem da faca não ofereceu qualquer resistência.

 A mulher agredida – melhor dito, profusamente esfaqueada – pouco a pouco, como observámos, foi diminuindo o volume dos seus gritos, até que acabou por se calar e, salvo erro, por se estirar, completamente desfalecida, no chão. Entretanto, chegou um polícia, que algemou o agressor. Este colaborou voluntária e calmamente na sua prisão. A rua apinhou-se de gente, que procurava, em alguns casos – levantar a mulher ferida. Mas não respondia. Sangrava brutalmente, como se fosse uma fonte desgovernada. O clamor da multidão era muito forte e só não houve ataques violentos ao agressor, porque, rapidamente, o polícia que o algemou, se retirou, levando-o certamente para a esquadra mais próxima. Surgindo uma pequena camioneta de carga que teve de parar perante aquele inesperada multidão – e porque o velho Hospital de Santo António se situava muito perto do local do crime – ofereceu os seus préstimos para transportar a vítima. Levantaram-na e deitaram-na na zona da carga, que se encontrava completamente livre. Não dava qualquer sinal de vida. E continuava ainda a sangrar, já sem o vigor de há pouco. Assim desapareceu no cima da rua.

 Eu e o meu colega, bastante confusos, ficámos sem fala. Cada um, à hora prevista, saiu da escola, quando a multidão já tinha desaparecido em grande parte. O homem da vassoura com um balde de água e o instrumento com que ameaçou o autor do crime limpava o chão do passeio do sangue vertido pela vítima… Afastei-me rapidamente, muito nervoso, para a estação de comboios...

 Quando cheguei a casa, procurei dissimular a minha emoção. Fui cumprimentar, como de costume, os meus progenitores, que se encontravam juntos na sala de jantar: ela a tratar dumas roupas e o pai, sentado a seu lado num sofá, lia calmamente o jornal do dia. Ao ver-me, e apesar do meu disfarce, a minha mãe olhou-me e, sem eu querer, perguntou: “Filho, o que é que te aconteceu?” Fiquei consternado. Nada disse e ela repetiu-me a mesma pergunta. O pai, olhando-me, observou: “Ó rapaz, estás com cara de caso... O que foi?” Já com lágrimas nos olhos, respondi: “Vi um homem matar a mulher à facada...” 

 Levantaram-se os dois. A mãe deixou cair as roupas que cozia e o pai o jornal. Tive de lhes explicar o que vira. Compreenderam a minha estupefação e logo me disseram: “Se quiseres, esta noite, vens dormir para o nosso quarto para não ficares sozinho no teu...” Respondi com energia: “Eu sou rapaz e não menina... Dormirei como sempre...” Concordaram.

 À noite, porém, quando a mãe me veio lembrar que acrescentasse às orações da noite uma Ave-Maria pela alma da mulher assassinada e outra pelo homem da faca, para que se arrependesse do mal que fizera, não resisti. “Mãe, eu tenho medo de ficar sozinho no quarto com a luz fechada...” O meu pai, que estava à porta de entrada, disse: “Não te preocupes. Hoje, trocamos. Eu durmo na tua cama, que é grande, e tu vais fazer companhia à tua mãe...”

 

P. Rui Rosas da Silva

P. Rui Rosas da Silva

1 outubro 2023