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Um exemplo anti radical

 

 

Quem teve a oportunidade de ver ontem no CCB o filme “Angela Davis: A World of Greater Freedom”, deve ter tido a tentação de fazer uma analogia com os acontecimentos recentes do ativismo jovem em protesto contra as políticas governamentais na área do Ambiente. As suas interrogações não são de hoje, mas expressam, intemporalmente, uma preocupação de sempre que emboca na nossa visão de Liberdade. Nesta espécie de filme-ensaio como lhe chama e que é abordado num artigo, publicado pelo jornal Público, a ativista norte-americana interroga-se sobre a evolução da Liberdade e como será viver livre daqui a 50 anos. Infelizmente, a sua visão cabe, por ora, no nosso futuro próximo, mas ao contrário do que sublinha, a radicalização dos movimentos de protesto contra as alterações climáticas não produzirão nenhuma revolução social como ela gostava que acontecesse, a não ser que se queira embrulhar a ação individual e coletiva numa alteração do comportamento perante as evidências científicas. Os recentes acontecimentos em Lisboa são disso exemplo e apenas contribuíram, claro está, para uma ilusória vitória e chamada de atenção pouco abonatória para os jovens protagonistas da “agressão” ao ministro do Ambiente, ou a edifícios símbolo. Diferente, sim, e a merecer um reconhecimento pela inteligência da sua ação, está o comportamento de jovens portugueses no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos que colocaram mais de 30 países, inclusive Portugal, no banco dos “réus”. Está em causa a sua Liberdade de viver com qualidade de vida e isso é mais do que suficiente para interrogarem na mais “alta instância europeia”, as tibiezas políticas dos sucessivos governos europeus. Não só têm o direito como o dever de o fazerem numa clara manifestação do que é e deve ser o exercício responsável de uma cidadania política ativa. A decisão que o Tribunal vier a tomar será histórica, seja ela qual for. Angela Davis sonha com outra revolução que olha para as desigualdades da década de 80, do século XX e percorre o caminho das conquistas verificadas ao longo de décadas com enfoque no passado esclavagista, base da Democracia atual, na sua visão, o que deixa a porta aberta para a discussão que temos hoje sobre as amplas liberdades de que gozamos e as suas origens e evolução das conquistas sociais, nomeadamente na igualdade de direitos e no combate ao racismo que se espelha, na sua visão radical, com o retrato das prisões portuguesas que visitou o ano passado. Seja como for, esta ativista e pensadora social, remete a discussão para uma dimensão que, sendo importante, tem um encontro marcado com a história, enquanto, importante sim, é perceber como hoje somos capazes de lidar com a Liberdade que temos e o que queremos fazer dela em nome do bem comum. Que a Democracia, cheia de defeitos, está em perigo, já o sabemos, e que por consequência, isso se refletirá na nossa Liberdade, também não suscita dúvidas; importante é perceber se estamos em condições de nos defender dos ataques que surgem de dentro do regime democrático. Nesse aspeto, a virtude do filme de Angela Davis, reside na capacidade de nos fazer interrogar sobre os caminhos que queremos percorrer hoje e não aonde queremos chegar daqui a 50 anos. Em 2073 não estarei cá, amanhã talvez e isso importa para cada uma e cada um a quem se preocupa com o que fazer hoje e como enfrentar os radicalismos e populismos, provenham da direita ou da esquerda. Tudo o resto, é sintaxe e significantes de uma gramática sociológica. 

 

Paulo Sousa

Paulo Sousa

1 outubro 2023