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A afetividade nas Organizações – A propósito do III Congresso da Associação Pediátrica do Minho

O estado de bem-estar e de satisfação dos profissionais de qualquer organização é fundamental para o seu bom funcionamento. Qualquer responsável por um serviço hospitalar, por uma unidade de saúde familiar ou similar não pode esquecer esta regra, se pretende que a estrutura que dirige desempenhe as suas diferentes tarefas com zelo, competência e humanismo.

Tendo sempre o foco no seu principal objetivo – tratar os utentes de acordo com as melhores práticas, à luz dos últimos conhecimentos cientificamente reconhecidos e com os recursos disponíveis – aquele responsável deve acautelar todas as outras atividades com idêntico empenho e dedicação. Refiro-me à formação pré e pós-graduada e à atualização contínua. Se não o fizer, estará a pôr em perigo a qualidade da assistência e a colocar em risco a capacidade da sua equipa em prestar os melhores cuidados. 

O advento da empresarialização das instituições de saúde colocou a gestão e os gestores num lugar ainda mais decisivo no bom funcionamento destas organizações. Quer a nível das administrações, quer a nível das chefias intermédias, estes agentes são muito importantes e não devem confinar a sua ação à obsessão pelos números. Alguns deles, oriundos das mais diversas proveniências, não têm conhecimentos nem possuem a sensibilidade para lidar com as peculiaridades das instituições de saúde e, não raras vezes, são fontes de estagnação e de conflitos evitáveis. Fazer entender a certos gestores que a atividade de um médico, de um enfermeiro, ou de outro qualquer técnico de saúde não se esgota na assistência e que é essencial reservar tempo para as tarefas formativas é, por vezes, uma missão espinhosa e difícil.

Em paralelo, as mudanças ocorridas nos últimos anos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), resultantes de fusões e concentrações, provocaram um desenraizamento de muitos dos seus profissionais e são um problema que não pode ser esquecido. A quebra dos laços às instituições e a subalternização das emoções e afetos que desde a fundação do SNS permitiram ultrapassar adversidades e constrangimentos, são factos indesmentíveis. 

Com o objetivo de reforçar e alargar os laços de afetividade entre todos os profissionais dos serviços públicos de pediatria dos hospitais desta bonita região do norte de Portugal e de promover a saúde da criança e do adolescente, nasceu em 1999 a Associação Pediátrica do Minho, tendo sido publicada a sua constituição em Diário da República no dia 24 de maio desse mesmo ano.

Com atividade regular desde então em que se destaca a edição anual de uma revista científica, a realização de jornadas, cursos e colóquios. Desde 2019 tem o seu ponto alto com a concretização de um congresso com periodicidade bianual. 

A última edição deste evento teve lugar na passada semana, dias 14 e 15, no auditório da Escola Superior de Saúde do Vale do Ave (CESPU), em Vila Nova de Famalicão e, como habitualmente, contou com a colaboração dos serviços de pediatria dos hospitais públicos de Viana do Castelo, Barcelos, Guimarães, Braga e V. N. de Famalicão e ainda do serviço de ginecologia/obstetrícia e do ACES desta última cidade.

Com um programa preenchido e de elevada qualidade científica onde foram abordados temas de grande atualidade, teve a participação de mais de duas centenas de profissionais e contou com a apresentação de 29 comunicações que muito enriqueceram o evento.

Além de ter proporcionado uma frutuosa troca de experiências e de saberes, o III Congresso da Associação Pediátrica do Minho foi também um tempo de reencontro, de convívio e de renovação da afetividade que se vai cimentando e que une muitos dos profissionais desta região.

Um bom exemplo do papel desta afeição que, ajudando a resistir às vicissitudes do tempo e das novas realidades, vai permitindo manter viva uma entidade que no próximo ano completará 25 anos de existência e que, deste modo, vai contribuindo para a resiliência do SNS.

J. M. Gonçalves de Oliveira

J. M. Gonçalves de Oliveira

19 setembro 2023