A ocorrência do Dia Mundial da Criança, na próxima quinta-feira (1 de junho), traz-me à memória a bela e assertiva frase de um dos maiores poetas-escritores da língua portuguesa: “Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças” (Fernando Pessoa, Liberdade).
Se, durante muitos séculos, não foram reconhecidos às crianças direitos nem relevância social, há uns tempos a esta parte, a situação inverteu-se. E ainda bem! Entre os maiores sinais disso mesmo estão a Declaração dos Direitos da Criança (1959) e a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, adotada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em 20 de novembro de 1989. Ratificada por 196 países, é o instrumento de direitos humanos mais consensual na história universal. Consagra os direitos da criança à sobrevivência, ao desenvolvimento, à proteção e à participação.
A importância das crianças na sociedade é por quase todos reconhecida e sentida. Elas são o encanto e o orgulho dos pais, dos tios e dos avós e é ver com quanta alegria se celebra o seu aniversário e mesmo o Dia Mundial da Criança! As razões estão à vista: “A criança é o pai do homem” (ditado popular), “vazia é a casa sem uma criança” (textos hindus) e “uma família sem filhos é como um jardim sem flores” (linguagem popular).
Quem não fica enternecido na presença de uma criança? A propósito, é sugestiva a pergunta retórica de Ernest Hemingway: “De todos os presentes da natureza para a raça humana, o que é mais doce para o homem do que as crianças?”. E também a afirmação de Louis Pasteur: “Quando vejo uma criança, ela inspira-me dois sentimentos: ternura, pelo que é, e respeito pelo que pode vir a ser”.
Se é certo que, ao longo dos tempos, a regra sempre foi cuidar bem das crianças, protegê-las e ajudá-las a crescer – infelizmente, também se registam tristes e infelizes exceções – nunca como hoje se cuidou tanto delas, às vezes até com algum exagero. O endeusamento e o protecionismo excessivo não ajudam as crianças a crescer bem. O seu crescimento saudável pressupõe regras e sentido dos limites e talvez seja por isso que um ditado antigo diz: “criança mimada, criança estragada”. Reportar-se-á ao exagero, pois que algum mimo é normal (“a criança e o gatinho vão a quem lhe faz miminho”)!
É de todos conhecido o carinho que Jesus nutria pelas crianças: “Deixai vir a mim os pequeninos e não os afasteis (...). Tomou-os nos braços e abençoou-os, impondo-lhes as mãos” (Mc 10, 14.16). É neste contexto que as propõe como modelo: “Quem não receber o Reino de Deus como um pequenino, não entrará nele” (Mc 10, 15).
A importância que lhes é reconhecida na Igreja motivou já diversos pronunciamentos de Papas e Bispos. Quem não recorda a simples, mas bonita Carta do Papa às Crianças, no Ano da Família (1994)? Reli-a, por estes dias, com o mesmo proveito e encanto com que a havia lido, pela primeira vez, no Natal de 1994. Nas nossas comunidades cristãs, as crianças assumem relevância nas festas da Catequese e nas Missas com Crianças, assim como no serviço do altar (acólitos) e nos Coros Infantis que, infelizmente, são raros, entre nós.
A crescer e a despertar para a vida, as crianças precisam de ser acarinhadas, protegidas e ensinadas, mas temos também muito a aprender com elas: “Nesta vida, pode-se aprender três coisas de uma criança: estar sempre alegre, nunca ficar inativo e chorar com força por tudo o que se quer” (Paulo Leminski). Ao debruçarmo-nos sobre o assunto, rapidamente concluímos que muito mais se pode ainda aprender com as crianças: a alegria de viver, a sinceridade, a confiança, a pureza, etc.
Desejo vivamente que o Dia Mundial da Criança desperte a criança adormecida que há em nós (Augusto Cury diz que “todos têm uma criança alegre dentro de si, mas poucos a deixam viver”); nos ajude a descobrir a importância das crianças na família, na sociedade e na Igreja; e nos sensibilize para a necessidade de as acarinhar, proteger e ajudar. Da sua energia, alegria e encanto depende o presente e, por maioria de razão, o futuro. É por isso que as valorizamos tanto e lhes desejamos que este dia seja para todas elas prenúncio de uma vida feliz.