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2019: Um ano de decisões

1 – «Ano novo, vida nova»: raros são os espaços de opinião que, por volta dos sucessivos Janeiros, não são invadidos por esta celebérrima máxima popular, cuja carga simbólica o imaginário imediatamente remete para um futuro recheado de conquistas e superação de inconseguimentos que, pelas mais variadas razões, mancharam o decurso do ano recém-cessado. Trata-se, no fundo, de uma transposição para o papel do clima de folia e esperança socialmente instalado por ocasião da santa quadra natalícia, numa tentativa (nem sempre genuína) de convencer o leitor de que a viragem de página imposta pelo calendário gregoriano resultará acompanhada de mudanças de igual ou superior monta no seu quotidiano; qual admirável mundo novo, forjado do nada e que num ápice se tornará tudo para aqueles que cegamente confiarem na fórmula mágica do «este ano tudo será diferente». 2 – Não sendo nossa pretensão abalar a fé daqueles que anteveem em 2019 uma espécie de rampa de lançamento para a edificação de uma sociedade expurgada de todos os defeitos e vícios que, de há demasiadas décadas a esta parte, vêm corrompendo a confiança dos cidadãos no regular funcionamento das instituições democráticas, cremos, todavia, ser tão ou mais importante não obliterar os exigentes desafios que os próximos onze meses encerram; sob pena de a mudança por que tantos des(esperam) chegar efetivamente em força, mas envolta em contornos diametralmente opostos aos de facto desejados. É que, como bem denota, David Runciman, “o [maior] problema que as sociedades politicamente estáveis enfrentam no século XXI é não saberem que aspeto terá o falhanço”, pelo simples facto de não serem conhecidos exemplos de “sociedades prósperas, seguras e bem-sucedidas, habituadas aos níveis de conforto e aos benefícios materiais das atuais democracias ocidentais que tenham entrado num processo de regressão” (cfr. Política. Uma pequena introdução a um grande tema, Objectiva, p. 70). O que não significa, contudo, que tal não possa acontecer; afinal, se há algo que a história veio invariavelmente provando – sobretudo, ao longo dos seus períodos de maior crise – é que não existem instituições, ideologias ou pessoas too big too fail. Quiçá, nem a própria democracia... 3 – 2019 será, por isso, um verdadeiro teste de fogo para a definição do que somos e para onde queremos caminhar, muito particularmente, sob o prisma de um calendário político decisivamente marcado pelas primeiras eleições legislativas desde o golpe de Houdini de Costa que fez de uma derrota a «Geringonça» (no plano nacional), bem como pela primeira chamada coletiva dos europeus às urnas depois do Brexit (no plano da União Europeia). Ignorá-lo, será não só o desperdiçar de uma oportunidade de oiro para dizer «basta!» aos crescentes episódios de incompetência e défice de espinha dorsal na gestão da res publica; como também – e diríamos, acima de tudo – o escancarar de uma janela para aqueles que, como verdadeiros abutres, se aproveitam da decrepitude de um sistema político-partidário ferido de morte para propagandearem os méritos de retóricas populistas, extremistas e, em última análise, incompagináveis com a arquitetura de qualquer Estado de Direito Democrático. 4 – É, pois, mandatório que todos, sem exceção, tenhamos a hombridade de assumir as responsabilidades que sobre cada um de nós impendem; sejam elas as de atribuir os necessários «cartões vermelhos» e votos de (des)confiança a quem de Direito (no caso do comum dos mortais) ou de não deixar que o deslumbramento pelo poder e pequenos objetivos de guerrilha pessoal ou partidária se sobreponham aos interesses do país e do próprio regime democrático (no caso dos que gozam de especial estatuto ou notoriedade política). Se assim for, estará dado um passo de gigante para a regeneração dos valores do pluralismo, da união na diversidade e da intransigente defesa da dignidade da pessoa humana. De outro modo, corremos o risco de ver movimentos como o «Chega» de André Ventura e seus sucedâneos, confirmarem, mais tarde ou mais cedo, aquilo que o Vox tem vindo a ameaçar em Espanha: afinal, é mesmo possível à extrema-direita ter sucesso para além das fronteiras geográficas de Estados fustigados por dramas como o terrorismo ou a imigração em massa. A decisão ? É nossa. Resta saber se estaremos ou não à altura do desafio.
Autor: Joel A. Alves
DM

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23 janeiro 2019