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Violência e injustiças “não são castigos de Deus”

Violência e injustiças “não são castigos de Deus”
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Publicado em 20 de março de 2022, às 12:18

Para José Ornelas, “é urgente a conversão de mentes e, mais urgente ainda, cuidar das vítimas da maior loucura humana que é a guerra".

O bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas, considerou hoje que “os desastres naturais, a violência e as injustiças" que afetam a humanidade "não são castigos de Deus”, que “não tem inimigos”. “Pensar que Deus é como uma balança de pesar bem e mal, para dar bênçãos aos bons e castigar os maus é perpetuar a lei da violência”, disse José Ornelas na primeira missa a que presidiu na Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima, enquanto novo bispo da diocese. Para o prelado, a guerra na Ucrânia é o exemplo do "jogo infernal do recurso à violência para submeter, escravizar, destruir, baseado numa visão de estratégia pessoal, de grupo ou de nação, que se arroga o direito de anular a liberdade dos outros e de os levar à sujeição”. “Não podemos deixar de condenar estes modos de pensar e de agir. Por outro lado, também não podemos entrar na lógica da resposta igual, mesmo quando se trata do dever de deter a mão dos tiranos”, disse o também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), para quem “os povos da Ucrânia e da Rússia são filhos/as de Deus e o mundo tem necessidade deles dois”. Segundo José Ornelas, “é urgente a conversão de mentes e, mais urgente ainda, cuidar das vítimas da maior loucura humana que é a guerra. Nunca haverá vitória nestes conflitos. As vitórias militares contam-se em mortes, ódio e sofrimento, sobretudo dos mais fracos. A única vitória é a paz e a reconciliação”. Durante a homilia, perante muitos fiéis – alguns oriundos da diocese de Setúbal, de que José Ornelas foi bispo até à nomeação para Leiria-Fátima -, o bispo recordou os eventos de Fátima em 1917, que “tiveram lugar durante a sangrenta primeira guerra mundial, a revolução russa e uma pandemia com efeitos mais devastadores do que aquela que ainda condiciona” a vida da população atualmente. “Maria, a Senhora de rosto resplandecente, traz a misericórdia de Deus a um mundo com muitas semelhanças àquele em que vivemos”, afirmou. Segundo José Ornelas, “Maria, Mãe e modelo da Igreja, pode ser vista nos milhares de mães que estão a sair da Ucrânia com as suas crianças e os seus idosos”. “Ela sabe o que é fugir da fúria dos tiranos, ser refugiada, depender da boa-vontade de gente desconhecida, para proteger o seu Menino, o seu tesouro, a esperança de um futuro melhor. Estas mães são dignas de toda a nossa estima, de todo o nosso apoio e acolhimento, até que seja necessário”, frisou. O bispo de Leiria-Fátima enfatizou, ainda, que “é bom ver que o mundo e a Europa (…) se mobilizaram perante esta tragédia humana, no acolhimento e na ajuda. São sementes positivas de bem que, paradoxalmente, vão caindo nos escombros de milhões de vidas causados pela violência e a morte”. “Que os nossos braços e a nossa vontade não cansem e que a nossa generosidade se una e organize, para que possamos focar a nossa atenção e a nossa ajuda naqueles/as que passam por provações tão grandes”, desejou. José Ornelas, nesta homilia, deixou ainda o desejo de contributo na construção de “uma Igreja disponível para escutar a voz de Deus, unida pelo Espírito de comunhão e partilha entre os irmãos e irmãs, (…) generosa no acolhimento e apoio fraterno a quem precisa e a quem se vê privado da justiça e dos meios para uma vida livre e digna aos olhos de Deus”. Na missa de hoje, e além de vários sacerdotes e membros do episcopado, José Ornelas teve como concelebrantes os dois anteriores bispos de Leiria-Fátima, António Marto e Serafim Ferreira e Silva.
Autor: Rita Cunha