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Dificuldade em aceitar a diversidade afeta Igreja Católica em Portugal, diz a equipa sinodal

Dificuldade em aceitar a diversidade afeta Igreja Católica em Portugal, diz a equipa sinodal
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Publicado em 07 de fevereiro de 2023, às 17:15

A delegação portuguesa apresentou a síntese da equipa sinodal da Conferência Episcopal Portuguesa, que sublinha que "o clericalismo obstaculiza a mudança".

A dificuldade em acolher e “aceitar a diversidade”, como casais em segunda união, pessoas com atração pelo mesmo sexo ou em uniões homossexuais, foi hoje reconhecida pela delegação da Igreja Católica Portuguesa na Assembleia Continental do Sínodo dos Bispos.

Na sessão desta manhã dos trabalhos da Etapa Continental Europeia do Sínodo dos Bispos, a decorrer em Praga, a delegação portuguesa apresentou a síntese da equipa sinodal da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), a qual sublinha que, “diante de modelos de pastoral gastos e distantes de um novo impulso evangelizador, o clericalismo obstaculiza a mudança, o legalismo arbitrário afasta os fiéis e o rosto burocrático de muitas comunidades são geradores de tensão e muitas vezes de abandono”.

“Há alguma dificuldade em acolher todos de igual forma e em aceitar a diversidade no seio da Igreja (casais em segunda união, pessoas com atração pelo mesmo sexo ou em uniões homossexuais) em valorizar a fragilidade, nomeadamente das pessoas com deficiência, e em compreender o que se entende por ‘acolhimento’”, adianta o documento hoje apresentado.

Segundo as conclusões plasmadas nesta síntese, “há, ainda, tensões diversas em temas ditos fraturantes, tais como: o acesso das mulheres ao sacramento da ordem; a ordenação de homens casados; a identidade sexual e de género; a educação para a afetividade e sexualidade; e o celibato dos padres”.

“Devem ser consideradas, igualmente, outras questões: a forma como são geridas as situações de abusos sexuais; a comunicação hermética que dificulta, não só o diálogo interno, mas o diálogo com a sociedade em geral e, especialmente, com outras confissões cristãs e religiosas”, aponta a síntese da equipa sinodal portuguesa.

Nesta segunda fase do processo sinodal, que se prolonga até ao outono do próximo ano, subordinado ao tema “Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”, a Igreja portuguesa entende, a partir da imagem bíblica apresentada no Documento da Etapa Continental apresentado pelo Vaticano - “alargar o espaço da tenda” -, que este “é sinal de esperança que revela a importância de a Igreja dar voz e vez a todos, indo às periferias, manifestando a necessidade de acolher a todos independentemente das suas circunstâncias, incluindo os que moral e canonicamente possam estar numa situação irregular”.

“A Igreja que se intui é aquela que está em saída porque se assume plenamente missionária e capaz de oferecer à Humanidade luzes de esperança”, sublinha o documento hoje lido, por Carmo Rodeia e Anabela Sousa, da equipa sinodal da CEP.

Para os autores do documento, “ressoa a necessidade de sermos uma Igreja com maior transparência nos processos de decisão e na sua comunicação, que dialoga com o mundo a partir da cultura numa perspetiva de ‘rasgar caminhos’, trazendo o Evangelho e a espiritualidade para o centro do debate público, numa Europa cada vez mais descristianizada, onde a dimensão institucional da Igreja tem uma relevância cada vez menor. Sublinha-se mesmo a necessidade de readquirir ‘relevância social’”.

Como prioridades para discussão, nomeadamente, na primeira sessão da Assembleia sinodal, a realizar no Vaticano em outubro deste ano, o documento síntese da CEP aponta para a prioridade a dar aos jovens e à participação da mulher na Igreja, à reflexão sobre “o ministério ordenado, considerando a possibilidade de ordenar presbíteros homens casados” bem como “ter uma atenção permanente aos pobres e dar centralidade às diferentes questões de cariz social, bem como às questões relacionadas com a ecologia face aos crescentes problemas ambientais”.

“Dar resposta às novas realidades sociais e afetivas, fortalecendo os vínculos nas Igrejas domésticas com um acompanhamento personalizado das famílias, e acolhendo os novos modelos familiares (famílias monoparentais, famílias reconstruídas a partir de outras, divorciados recasados, famílias com pais/mães do mesmo sexo e com filhos biológicos ou adotados)” é outra das prioridades identificadas, a par do diálogo com “a cultura e com o pensamento contemporâneo, em temas como a inteligência artificial, a robótica ou as questões de identidade de género (LGBTQIA+)” ou a necessidade de revisão da “comunicação e linguagem da Igreja (para dentro e para fora) e a ocupação do espaço público como uma voz credível e de serviço”.

O Sínodo sobre a Sinodalidade, que culminará no Vaticano em outubro de 2024, quer saber como é que a Igreja está a fazer o “caminho em conjunto” no anúncio do Evangelho e chamou, numa primeira fase, “todos os batizados” a darem opinião.

“Uma Igreja sinodal, ao anunciar o Evangelho, ‘caminha em conjunto’. Como é que este ‘caminho em conjunto’ está a acontecer hoje” na Igrejas locais? foi uma das principais perguntas colocadas aos cristãos.

Nos trabalhos em Praga, que se prolongam até quinta-feira, estão representantes de 39 conferências episcopais da Europa.


Autor: Agência Lusa