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«Realidade dos refugiados é grave e não os acolher é um escândalo»

«Realidade dos refugiados é grave e não os acolher é um escândalo»
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Publicado em 07 de fevereiro de 2017, às 22:06

Alunas do Colégio Luso-Internacional de Braga numa encenação sobre o tema

D. Jorge Ortiga notou que existe ainda «muito medo, muita desconfiança, perplexidade e interrogações» relativamente ao acolhimento de refugiados, mas a Europa tem condições para acolher os que procuram fugir da guerra e/ou estão a viver provisoriamente em campos e deve manifestar essa «coragem» abrindo as portas a essas pessoas. «A realidade dos refugiados é gravíssima e não os acolher é um escândalo», alertou.

O Arcebispo de Braga falava numa sessão informativa e mobilizadora sobre o acolhimento de crianças refugiadas e suas famílias em Portugal, organizada em parceria com a Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR), na Universidade Católica em Braga.

«Temos o dever de acolher, esta é uma causa de todos, não somos apenas nós mas muitos outros que devem ter este coração sensível a esta realidade de acolher», vincou o prelado, diante de uma plateia em que estavam representantes de paróquias, instituições particulares de solidariedade social, congregações religiosas, entre outros.

O Arcebispo de Braga lembrou uma passagem da exortão apostólica "A Alegria do Evangelho" em que o Papa Francisco sublinha a importância do acolhimento e exorta os países e as cidades a «uma abertura generosa (...), capaz de criar novas sínteses culturais» e a superarem a «desconfiança doentia integrando os que são diferentes».

Reforçando as palavras do Papa, D. Jorge Ortiga procurou desmistificar a ideia de que a integração de outras culturas num território descarateriza a identidade desse povo.

«Ao acolhermos outras culturas nós enriquecemos a nossa identidade, com o diferente na cultura, com o diferente na mentalidade, com o direferente em tudo que essas pessoas possam trazer», explicou o Arcebispo de Braga, considerando que não há desculpas para não acolher e integrar aqueles que são diferentes.

D. Jorge aproveitou para transmitir uma palavra de estímulo para que nas paróquias, nas congregações religiosas, nas instituições de solidariedade social ou nas famílias haja «coragem» de acolher pessoas refugiadas.

«Às vezes estamos à espera que venha resposta da Segurança Social e temos espaços que não estão devidamente ocupados, quando deveríamos, nesta simplicidade de seres humanos e muito mais de cristãos, de abrir a porta para poder acolher e dar aquilo que falta a essas pessoas», disse o prelado.  

O coordenador da PAR, Rui Marques, apelou à «coragem cívica» dos portugueses, notando que «o medo torna-nos desumanos, impede-nos de fazer pontes com os outros» e «quem vive refém do medo só gera desconfiança».

«Nesta crise dos refugiados, o que devemos questionar é quem somos nós? Não é quem são eles!», disse o responsável, acrescentando que «é importante que Portugal, neste tempo tão difícil, com tantos sinais que nos deixam perplexos e preocupados, mantenha o esforço de ser solidário, porque só a solidariedade nos trará a paz, nos ajudará a construir a justiça».

Portugal tem «mais do que condições» para continuar a receber refugiados

O coordenador da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) considerou, ontem, que Portugal «tem condições e mais do que condições» para continuar a acolher refugiados e não apenas a nível material.

«Portugal tem, historicamente e também no presente, coração e generosidade para acolher quem precisa de ser acolhido, porque estamos a falar de pessoas que vêm da guerra e que precisam de uma oportunidade para recomeçarem a sua vida», disse o responsável. 

Até ao momento já chegaram ao nosso país cerca de mil refugiados provenientes de países como a Síria, Iraque, Eritreia, entre outros.

Rui Marques considera que Portugal, a este nível, tem cumprido «muito bem» o seu papel no contexto da União Europeia, estando do lado dos países que franqueiam as suas fronteiras.

«Portugal tem estado aberto e sido solidário com os refugiados, quer com aqueles que estão ainda próximo do seu país de origem, como por exemplo as campanhas de solidariedade com o Líbano, quer com aqueles que estão em campos de refugiados na Grécia», salientou.

A PAR está a promover sessões  no sentido de reforçar a sensibilização da sociedade portuguesa e das instituições de base comunitária, ligadas à Igreja Católica e todas as outras, para a questão dos refugiados.

O tema dos refugiados saiu um pouco da agenda mediática, mas, diz Rui Marques, «não quer dizer que tenha desaparecido», pelo que «é necessário continuar a mobilizar as pessoas para terem presente este desafio enorme da crise que o mundo vive em termos de solidariedade com os refugiados».

A sessão de ontem em Braga iniciou-se com uma encenação sobre o tema dos refugiados protagonizada por um grupo de alunas do Colégio Luso-Internacional de Braga.

Destaque

Nesta sessão esteve também a progenitora de uma família curda acolhida em Vila Verde que deixou o seu testemunho sobre os primeiros meses em Portugal.

Zeinabe Hanan disse que ela, o seu marido e os quatro filhos (entre 1 e 7 anos) estão em processo de adaptação, sendo a língua o maior entrave. Nesse sentido, estão a aprender português e os filhos mais velhos já falam alguma coisa. Considera os portugueses um povo acolhedor e solidário.

Bernardino Silva, da Comissão Nacional Justiça e Paz, deixou o seu testemunho sobre a realidade que presenciou recentemente num campo de refugiados no Iraque.

O missionário, ligado ao Departamento da Pastoral Social da Arquidiocese de Braga, que esteve nove dias na zona de Erbil, disse que as várias instituições de solidariedade que estão no terreno «são de confiança» e «estão a fazer um trabalho magnífico», mas precisam de apoio material para continuar a sua ação humanitária.

 


Autor: Jorge Oliveira