Espaço do Diário do Minho

Ser velho em Portugal

25 Jan 2023
Dinis Salgado

Pensando eu que já fomos um povo de descobridores, marinheiros, heróis e santos, neste país à beira-mar plantado não se pode ser velho; e nem os brandos costumes que moldam a idiossincrasia nacional capazes são de garantir tranquilidade, bem-estar e segurança a esta faixa etária.

Por exemplo, não se pode ser velho na doença, porque escasseiam os meios de assistência médica e medicamentosa, e, relativamente àquela, quase milhão e meio de cidadãos não tem médico de família, incluindo-se nesta estatística alguns milhares de idosos.

Depois, a assistência medicamentosa igualmente escasseia, porque os remédios indispensáveis a quem é velho não são a todos acessíveis por falta de dinheiro para a sua aquisição; e isto não é novidade pois sabemos que as reformas de miséria que grande maioria aufere mal cobrem os gastos dos bens essenciais (alimentação, habitação, eletricidade, água, gás e vestuário).

E a juntar a esta triste realidade, os nossos velhos, vulneráveis e carentes por natureza, ainda sofrem as implacáveis deficiências do Serviço Nacional de Saúde (SNS) ao mantê-los em longas listas de espera para cirurgias, exames e consultas e retendo-os longas horas nas urgências hospitalares; e, então, não vemos vontade política nem competência governativa para impedir a fuga de médicos do SNS para os hospitais privados.

Pois é, e se pensarmos que, aquando da pandemia da Covid 19, quem mais sofreu e morreu, por escassez de meios para acudir às suas comorbilidades, foram os mais velhos; e fundamentalmente por falta de mobilização geral de meios humanos e materiais a esta classe etária faltaram os necessários exames médicos, cirurgias, consultas, internamentos e tratamentos urgentes.

Mas, não ficam por aqui os males que atingem os idosos, basta pensarmos no abandono a que muitos são sujeitos em lares, casas de acolhimento e hospitais por parte dos próprios familiares; e até os maus tratos e solidão são fenómenos recorrentes em lares clandestinos ou não fiscalizados devidamente ou nos que escapam à fiscalização que devia ser rigorosamente exercida por quem de direito.

Ademais, outros malefícios que atingem a velhice neste país são a falta de ocupação, de atividade física e mental e de convívio social, amigo e franco; e esta situação arrasta muitos velhos aos bancos de jardim onde sozinhos, isolados, mudos e tristes, contando as horas que faltam para regressar a casa, onde muitas vezes. os espera nada mais do que a solidão, nostalgia e abandono; e, por isso, na generalidade, ser velho neste nosso país, considerado acolhedor, pacífico e bom, como diz o nosso povo não passa de uma óbvia miragem, ou seja de um grande pincel.

Agora, a juntar a este vale de lágrimas, vem a louca exigência, saída da cabeça de quem governa, que está a ser feita aos idosos, quer pelo setor público, quer privado, do uso da Internet para tratar de assuntos, seja de que natureza for (financeira, fiscal, logística, da sua vida privada…), impedindo, assim, o recurso à via postal; e porque ninguém duvida, a não ser as mentes ditas iluminadas de governantes e gestores públicos, de que para a grande maioria dos nossos velhos que pouco ou nada sabe de computadores, redes sociais e telemóveis, pois nasceu e cresceu no tempo do lápis e da caneta e, quando muito da máquina de escrever, este não passa de um absurdo e duro golpe na sua óbvia dignidade de ser velho.

Mas, vejamos um exemplo: há tempos, um meu amigo octogenário pediu, via postal, à Caixa Geral de Aposentações (CGA) um esclarecimento sobre o cálculo da sua pensão referente ao passado de Outubro que lhe chegou desajustada para menos relativamente ao anual Acréscimo Vitalício de Pensão (AVP), resultante da sua condição de antigo combatente da guerra colonial; e, então, a resposta desta entidade pública foi taxativamente exemplar do que atrás se afirma: para esclarecimento sobre o assunto poderá consultar o detalhe sobre as operações de cálculo realizadas na fixação do valor do seu benefício, acedendo directamente através dos serviços on-line para pensionista da Caixa, bastando para tal que se registe na CGA Directa (cgadirecta.cga.pt) utilizando a funcionalidade Registo/Pessoa Singular.

Que tal? Isto leva-nos obviamente a concluir alto que não se pode ser velho neste país; e a exclamar, alto e bom som, que a tratar assim os seus velhos este país mais não é do que um circo onde os seus principais atores vestem a pele de autênticos trogloditas.

Então, até de hoje a oito.



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