Espaço do Diário do Minho

Assim morrem as civilizações

25 Jan 2023
André Francisco Soares Carvalho Alves Teixeira

Há mais de duas décadas que Portugal não acredita na Educação. A falta de visão que exibimos quanto à jugular da nossa civilização sair-nos-á cara, muito para lá dos efeitos que as atuais manifestações de professores terão em alunos e orçamentos. Não existe Democracia sem uma população letrada, consciente e participativa, e uma civilização só evolui por acumulação de conhecimentos e a sua passagem às sucessivas gerações. Daqui surge a ideia de que os filhos devem ter vidas melhores que os seus pais: do progresso que a comunidade consegue através de anos de experiência, depositado diligentemente na geração seguinte, que por sua vez fará a sua parte.

Ora, não é possível aspirar a tal sem um sistema educativo transversal, que toque todos os cidadãos, independentemente de classe, origem, ambição ou até de vontade. Apenas um sistema público, onde o Estado assegura a todos a possibilidade de aprender e toma como seu o dever de ensinar, pode consagrar como missão de cada um contribuir para este etéreo erário comum. Um sistema em que os alunos são meros clientes desvirtua o próprio propósito de ensinar, independentemente do seu preço, passando desde logo a mensagem de que a Educação não é um direito de todos, mas apenas daqueles que podem pagar. Tornar um direito basilar alvo de transações comerciais banaliza o seu valor; o direito a ter filhos não é comercializável, e por boas razões. A democratização da Educação é a principal responsável pela criação da classe média, pela elevação de milhões da pobreza, pelo progresso científico e social, pela criação da própria ideologia meritocrática que muitas vezes a ameaça. Educação nunca é isenta de ideologia, e uma Educação deixada a cargo da Família é estruturalmente desigual, sendo esse um inevitável fator de diferenciação que deve ser mitigado, não encorajado. Educar não é apenas depositar informação; é acima de tudo desenvolver perspetivas e capacidade de análise através do estudo das partes essenciais do património intelectual da Humanidade, procurando dar resposta aos “porquês” que apoquentam as nossas almas, daí derivando soluções para os nossos flagelos. Educação é o anátema do dogma e do radicalismo, razão pela qual foi e continua a ser perseguida por fundamentalistas e autocratas. Educação exige calma, ponderação, foco e subtileza. Tudo coisas essenciais e raras no momento em que vivemos.

É, portanto, para lá de ridículo considerar que um sistema subfinanciado, sobrelotado e sob ataque de forças históricas e políticas possa cumprir o seu trabalho. As novas tecnologias criam nas crianças uma aversão à subtileza e o vício da satisfação imediata e dos de estímulos superficiais. Para os combater precisamos de profissionais capazes, não de proletários da certificação. Um professor sem tempo para aprender não pode atualizar-se com novo conhecimento. Um professor sem um salário adequado não pode considerar a filosofia ou arte para além da sobrevivência. Um professor com centenas de alunos não pode preocupar-se com cada um deles. Um professor sem o respeito da comunidade não se sente impelido a continuar. Retirar qualidade de vida à classe não irá atrair novos profissionais, assegurando que a qualidade do ensino diminui continuamente, num círculo vicioso. Sem profissionais de Saúde falecem os pacientes; sem profissionais da Educação falecem as civilizações. Sendo mais fácil investir nos primeiros, não podemos deixar que o urgente nos impeça de considerar o decisivo.

Não é possível desejar-se um Portugal melhor sem uma Escola Pública que crie gerações capazes de enfrentar os desafios que nos ameaçam. O atual sistema está cansado e doente, ferido pela ignorância e apatia daqueles que dele usufruíram. Para o salvar necessitamos de assumir os erros e perceber que a luta dos professores não é deles, mas de todos nós, e que a Escola é mais do que uma creche para deixar os miúdos quando os pais vão trabalhar. A velha ideia de que a solução para todos os males é a Educação parece irrealista porque nunca a priorizamos como o nosso pilar essencial. Talvez esteja na hora de tentar, antes que as mentes que procuramos edificar deixem sequer de conceber a tentativa.



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